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A paixão pelo cosplay despertou o melhor em um adolescente problemático.

TAKASAGO, Prefeitura de Hyogo – Suzu Momoi teve uma relação complexa com sua própria família quando era adolescente.

Ela chegou a desenvolver o hábito de cortar os braços com um estilete. Seu único consolo era o cosplay.

Hoje, ela trabalha como professora em tempo parcial em uma escola pública local, onde ensina aos alunos o que é necessário para iniciar um negócio.

“Por mais difíceis que as circunstâncias possam parecer, as coisas mudam quando você encontra pessoas que te tocam”, disse Momoi, de 33 anos, que mora em Takasago.

O pai dela sofreu um derrame quando ela estava no terceiro ano do ensino médio. Isso mergulhou os negócios da família em dificuldades financeiras e todos na pobreza.

A partir desse momento, as coisas começaram a piorar.

"Minha mãe me disse que não tinha dinheiro para me mandar para a universidade e meu irmão, que era um ano mais velho que ela, descontava sua frustração em mim através da violência", ela relembra.

Sentindo-se rejeitada, ela começou a cortar os pulsos.

UM ENCONTRO QUE MUDA A VIDA

Mas tudo mudou quando ela estava no segundo ano do ensino médio.

Sua professora da turma percebeu que ela havia enfaixado os pulsos para esconder os ferimentos que havia infligido a si mesma.

Mesmo ela tendo lhe dito para cuidar da própria vida, a professora nunca se irritou.

Ela nunca tinha conhecido um adulto como ele antes.

O professor não a julgava e a incentivava a ser gentil consigo mesma. Ele sempre lhe oferecia palavras carinhosas como: "Você realmente não quer fazer isso com o seu corpo" e "Vamos fazer isso só mais uma vez".

"Ela tinha um olhar severo. Talvez fosse porque não confiava em adultos", lembrou a professora.

Em relação às suas interações com uma aluna que tinha um histórico de episódios repetidos de automutilação, ele acrescentou: "No fundo, eu estava com medo. Mas pensei que o comportamento de automutilação dela pioraria se ela também se sentisse rejeitada na escola e não tivesse para onde recorrer."

No outono, Momoi decidiu parar de se machucar.

AVISO SOBRE COSPLAY

Momoi aspirava a se tornar uma dubladora, acreditando que isso lhe permitiria se transformar em qualquer personagem de sua escolha.

Ela trabalhava meio período em um supermercado e em um restaurante para economizar dinheiro com as mensalidades da faculdade. Frequentava aulas em uma escola profissionalizante no distrito central de Umeda, em Osaka, uma vez por semana.

Certo dia, ela foi convidada por seus colegas de classe para participar de um evento de cosplay, onde os participantes se vestiam como personagens de anime e videogames.

Quando Momoi imitou a ídolo virtual Hatsune Miku, ela arrancou aplausos dos fãs com câmeras, que ficaram encantados ao vê-la tão fofa.

Foi uma sensação boa.

Ansiosa para romper os laços com sua família, Momoi queria encontrar um emprego que lhe proporcionasse uma renda estável para que pudesse morar sozinha.

Sua resposta foi tornar-se funcionário público.

Após se formar no ensino médio, ela conseguiu um emprego na prefeitura.

Trabalhando na divisão de agricultura, silvicultura e pesca, Momoi era responsável por ajustar a produção de arroz e consolidar as fazendas.

Ela também trabalhou para o secretariado da assembleia municipal.

Entretanto, ela continua suas atividades de cosplay e foi escolhida para representar a região de Kansai na rodada preliminar do World Cosplay Summit por dois anos consecutivos.

COMO VICE-PRESIDENTE E MODELO DE COSPLAY

Naquela época, Momoi conheceu Takumi Orii, de 47 anos, que dirige a Takumi Kogei, uma empresa de processamento de plástico, aqui na região.

A empresa produz e vende "armas de fantasia", ou seja, réplicas de plástico de armas presentes em videogames, animes e mangás.

Ela ficou encantada com a ideia de um trabalho que transforma sonhos em realidade e largou tudo aos 24 anos.

Atualmente, ela trabalha como vice-presidente responsável pela contabilidade e marketing, além de atuar como modelo em eventos de cosplay realizados em todo o país.

Ela também criou uma empresa de produção de figurinos há três anos.

Para Momoi, o cosplay permitia que ela escapasse da realidade cotidiana, mesmo quando estava no ensino médio.

"Agora que se trata da minha carreira, isso se tornou uma parte importante do que me define", disse ela.

Foi sua trajetória profissional que chamou a atenção da Escola Secundária Shoyo, administrada pela prefeitura, que normalmente convida membros da câmara de comércio e indústria local para dar palestras aos alunos.

Momoi foi escolhida por poder oferecer aos alunos conselhos valiosos baseados em suas experiências, que a levaram a se tornar uma cosplayer de sucesso.

Por recomendação da escola, o conselho de educação da prefeitura nomeou Momoi como professora especial em tempo parcial responsável por estudos independentes para alunos do terceiro ano de administração de empresas neste ano letivo.

O tema do seu curso é "empreendedorismo".

Como parte de seu treinamento prático, os alunos planejam abrir uma loja especializada em uma rua comercial local em dezembro. Momoi está ensinando a eles, entre outras dicas de negócios, como comprar mercadorias e levantar capital inicial.

Membros de uma cooperativa de crédito local se juntaram à sua turma em setembro, quando os alunos apresentaram suas ideias de negócios.

GANHE CONFIANÇA

Os alunos ouvem atentamente o que Momoi diz durante suas aulas, mesmo que ela fale de uma maneira pouco convencional.

"É mais difícil pedir dinheiro emprestado do que ganhar, vocês sabem?", disse ela a eles um dia. "Olhem nos olhos deles quando falarem. Lembrem-se disso, porque será uma vantagem para vocês quando crescerem."

Segundo Yusuke Toyama, de 53 anos, diretor da escola, até mesmo os alunos que chegam atrasados ​​e os que faltam às aulas vêm à escola com entusiasmo para assistir às suas aulas.

Momoi está determinada a aceitar o que os alunos dizem ou fazem.

"Ela me ouve. Eu a amo", disse Yuka Yamamoto, de 17 anos.

Momoi disse:Espero que eles conheçam muitas pessoas, porque isso mudará a maneira como pensam e o que são capazes de fazer.