Dificuldades auditivas ocultas passam despercebidas no Japão.

Dificuldades auditivas ocultas passam despercebidas no Japão.

OSAKA – Quando Tomoko Nakamura entrou no ensino médio em abril de 2024, ela estava confiante em suas chances de obter boas notas, já que havia se classificado consistentemente entre os cinco melhores alunos no ensino fundamental. Mas seus problemas começaram quando ela percebeu que literalmente não conseguia entender seu professor de física.

Nakamura, um pseudônimo, tem audição normal e consegue conversar com seus amigos e familiares. Mas ela não entende o que seu professor de física está dizendo, apenas o tom e o volume de sua voz.

Esta jovem de 17 anos, residente na província de Hyogo, no oeste do Japão, foi diagnosticada com "dificuldades auditivas", uma condição para a qual as diretrizes de diagnóstico só foram estabelecidas no Japão em março de 2024.

Segundo algumas estimativas, pessoas com dificuldades de fala podem representar até 1% da população.

Nakamura conseguia entender seus outros professores. Havia apenas seu professor de física – um homem entre cinquenta e sessenta anos – cuja "voz parecia desaparecer" no instante em que ela o ouvia.

"Eu conseguia ouvir os sons, mas não conseguia entender nenhuma palavra", disse ela.

Após tirar apenas dois pontos em 100 na sua última prova de física do segundo semestre, ela ficou perdida. "Eu não sabia o que fazer. Não havia nada que eu pudesse fazer."

Naquela época, ela descobriu sintomas de dificuldades auditivas online. Nakamura consultou sua mãe e foi a um especialista, que a diagnosticou com essa condição, também conhecida como transtorno do processamento auditivo.

Pessoas com dificuldades auditivas obtêm resultados normais em testes de audição, mas têm dificuldade para compreender conversas que envolvam ruído, fala rápida ou várias pessoas. Acredita-se que algum tipo de comprometimento ocorra no cérebro durante o processamento da linguagem, mas a causa exata permanece desconhecida.

Os sintomas variam de pessoa para pessoa, e a forma como os sons são percebidos também muda dependendo do ambiente. Por exemplo, algumas pessoas ouvem ruídos ambientes misturados com o que ouvem, outras ouvem apenas fragmentos de conversas e algumas pessoas, como Nakamura, não conseguem entender certas vozes.

Nakamura às vezes tinha dificuldade para entender conversas. Na maioria dos casos, isso acontecia com seus amigos, então ela simplesmente pedia que repetissem o que tinham dito. Quando conversava com várias pessoas, às vezes se sentia excluída, mas dava risada e dizia: "Minha audição é como a de uma senhora idosa".

Se ela se esforçasse muito para se concentrar quando o professor de física falava, às vezes conseguia entender. Mas, quando fazia isso, não conseguia anotar nada. E havia limites para o que ela conseguia acompanhar com a lição de casa e a leitura do livro didático.

A dificuldade de audição não é uma doença progressiva, mas também não existe cura definitiva. Especialistas afirmam que é fundamental criar ambientes que promovam a comunicação, ao mesmo tempo que se aprende a lidar eficazmente com o distúrbio.

As estratégias incluem o uso de fones de ouvido com cancelamento de ruído para reduzir sons perturbadores ou aplicativos de transcrição para converter conversas em texto.

Mesmo sem usar tecnologia, simplesmente falar devagar ou manter contato visual ao falar pode ajudar pessoas com dificuldades auditivas a entender melhor, dizem os especialistas.

Em novembro de 2024, Nakamura pediu para gravar as aulas de seu professor de física para poder transcrevê-las usando um aplicativo. Mas sua escola recusou, alegando que seu professor titular diria que isso violaria a privacidade dos alunos que fazem perguntas.

Nakamura e sua mãe começaram a entrar em contato com a escola, explicando os sintomas das dificuldades de audição, os métodos para lidar com elas e como funcionam os aplicativos de transcrição. Eles também visitaram o conselho escolar.

Levou cerca de cinco meses. Gradualmente, os professores começaram a entender, informando-se sobre as dificuldades de audição por meio de vídeos e artigos escritos por especialistas. Finalmente, Nakamura foi autorizada a gravar sua aula de física e usar um aplicativo de transcrição.

Ela ficou satisfeita com o resultado quando o utilizou em março de 2025. "Eu ouvi tudo o que meu professor de física disse!"

Pela primeira vez em um ano, ela entendeu as lições, mas lamentou aqueles cinco meses perdidos.

"É porque as dificuldades de audição não eram muito conhecidas e porque eu não aparento ter uma deficiência", explicou ela. "Deve haver outras pessoas que enfrentam dificuldades como eu."

Desde aproximadamente 2018, pessoas com dificuldades auditivas têm criado grupos de apoio em todo o Japão. Atualmente, existem 10 deles em todo o país.

Diagnosticado com a doença em 2018, Yoshitada Watanabe é o representante de um grupo da região de Kinki, que inclui Osaka e Hyogo.

“Órgãos governamentais e escolas dão muita importância a precedentes”, disse Watanabe. “Mas as dificuldades auditivas só ganharam critérios de diagnóstico no ano passado, então, é claro, não haverá nenhum precedente.”

Os sintomas muitas vezes passam despercebidos. Em março, a Kyodo News realizou uma pesquisa com 147 pessoas ou seus familiares que relataram ter dificuldades de audição.

A pesquisa revelou que, ao longo do último ano, 29 pessoas — 20% do total — enfrentaram dificuldades no local de trabalho ou na escola.

“Muitas pessoas só se dão conta disso depois de começarem a trabalhar. Elas entram em uma empresa em abril e são repreendidas pelo chefe ou por colegas mais experientes por ‘serem lentas para aprender’ ou ‘não ouvirem’. É aí que começam a pesquisar e descobrem as dificuldades de escuta”, explicou Watanabe.

As consultas em grupos de apoio atingem o pico todos os anos após o feriado da Golden Week, do final de abril ao início de maio. A média mensal de cerca de 30 casos salta para cerca de 100. As pessoas descobrem esse transtorno online durante os feriados e procuram ajuda imediatamente.

Existem poucas instituições médicas capazes de diagnosticar dificuldades auditivas, e obter um diagnóstico pode levar vários meses.

“Durante esse período, os problemas causados ​​por dificuldades de audição continuam a ocorrer diariamente. Houve casos em que pessoas deixaram seus empregos por causa disso”, disse Watanabe.