Um feito histórico: um escultor de gelo recebe o título de "Mestre Artesão".
Durante meio século, Tsuneo Ono dedicou-se à sua paixão por criar uma arte destinada a desaparecer.
Essas mesmas esculturas efêmeras lhe renderam um legado duradouro em 7 de novembro, quando o Ministério da Saúde, Trabalho e Proteção Social homenageou o artista de 76 anos, concedendo-lhe o Prêmio de Trabalhador Excepcionalmente Qualificado.
Mais conhecido como o "Mestre Artesão Contemporâneo", Ono é o primeiro escultor de gelo a receber este prestigiado título.
Criado em 1967, o programa de premiação celebra artesãos excepcionais para elevar seu status social, aumentar os padrões técnicos e inspirar tanto os artesãos em atividade quanto a próxima geração.
Ono, que descobriu a escultura em gelo há cerca de 50 anos enquanto trabalhava como chef especializado em culinária ocidental, estava entre os 142 artesãos reconhecidos este ano por sua extraordinária habilidade.
“Fiquei surpreso, porque essa categoria nunca havia sido incluída antes”, disse ele. “É um grande incentivo para todos os envolvidos nessa profissão em todo o país.”
DE ALUNO A INSTRUTOR
A jornada de Ono com esse meio começou na década de 1970, depois que esculturas decorativas para banquetes chamaram sua atenção. A beleza efêmera do gelo, com seu brilho cristalino sob os lustres dos salões de baile, despertou algo profundo dentro dele.
Inicialmente, ele aprendeu observando colegas mais experientes, mas logo, querendo "estudar seriamente", matriculou-se em um curso especializado.
Então veio a virada. Um convite inesperado de seu mentor, que estava criando uma escola inteiramente dedicada à escultura em gelo, levou Ono a tomar a ousada decisão de pendurar o avental de chef e embarcar em uma nova vocação: ensinar a arte do gelo.
Isso não seria um abandono total do mundo culinário, mas sim um salto em direção a um sabor artesanal diferente.
Ao longo das décadas seguintes, mais de 3.000 chefs de todo o Japão estudaram sob sua orientação para aprender a transformar enormes blocos em obras-primas.
De graciosos cisnes a complexos projetos arquitetônicos, todos destinados a se desfazer, mas sempre esculpidos com a precisão e o respeito de algo feito para durar.
Enquanto lecionava, Ono também aceitava encomendas de hotéis para criar esculturas magistrais para salões de banquetes, realizava demonstrações de escultura ao vivo em eventos públicos e criava peças para diversos anúncios de bebidas; tudo isso levando a beleza efêmera do gelo a um público mais amplo.
Para Ono, o fascínio de sua arte reside em dois momentos de encantamento: a primeira onda de espanto dos espectadores e a beleza calma e etérea de uma escultura concluída à noite que brilha sob a luz do sol da manhã.
FORMA E MASSA
Um único bloco pode pesar até 135 quilos e medir 1 metro de altura, 55 centímetros de largura e 27 centímetros de espessura.
Acima de tudo, Ono sempre priorizou a segurança ao usar motosserras, serras manuais, furadeiras e cinzéis para moldar e montar enormes blocos de gelo de acordo com o que lhe viesse à mente.
"A verdade é que costumo fazê-las um pouco mais grossas", admite ele, rindo, "mas acho que tenho as habilidades, talvez até mais do que a geração mais jovem, para fazê-las mais leves."
Embora nenhuma de suas esculturas jamais tenha desabado, ele admite permanecer "preocupado até o final de cada evento".
A procura por esculturas de gelo atingiu o pico por volta de 1990, durante a bolha económica japonesa, e tem vindo a diminuir desde então. A pandemia da COVID-19 representou outro duro golpe, e as encomendas só recentemente começaram a recuperar.
A maioria dos que estudam essa arte são chefs de estilo ocidental que a aprendem como parte de sua prática culinária, e existem competições onde podem testar suas habilidades e criatividade.
Ainda hoje, Ono continua a dar aulas num workshop de estudos mensal.
"Quero transmitir essas técnicas para a próxima geração", disse ele. "Se eu puder ajudá-los, mesmo que seja com apenas uma ou duas dicas, continuarei compartilhando o que sei enquanto for possível."

