ENTREVISTA: A violência sexual relacionada a conflitos está se tornando uma tática de guerra, segundo especialista da ONU.

ENTREVISTA: A violência sexual relacionada a conflitos está se tornando uma tática de guerra, segundo especialista da ONU.

TÓQUIO – A violência sexual relacionada a conflitos aumentou drasticamente e está sendo usada como uma “tática de guerra, tortura, terrorismo e opressão política”, disse um representante especial da ONU, apelando ao Japão e a outros países para que continuem financiando e apoiando as vítimas.

Pramila Patten, Representante Especial do Secretário-Geral sobre Violência Sexual em Conflitos, afirmou em entrevista recente à Kyodo News que a estrutura de apoio da ONU está em um "momento crítico" devido à redução do financiamento dos Estados Unidos e de outros grandes doadores.

De acordo com o relatório anual de 2025 preparado pelo gabinete de Patten, a violência sexual relacionada a conflitos inclui estupro, escravidão sexual, prostituição forçada e qualquer outra forma de violência sexual de gravidade comparável, perpetrada contra pessoas independentemente da idade e do sexo e relacionada a um conflito.

"É uma estratégia. É deliberado humilhar, aterrorizar, desestabilizar", disse Patten. "É uma ferramenta poderosa."

Em 2024, as Nações Unidas documentaram e verificaram mais de 4.600 casos de violência sexual em conflitos, um aumento de 25% em comparação com o ano anterior. O número de crianças vítimas atingiu um nível crítico de 35%, segundo dados da ONU.

Embora a maioria das vítimas sejam mulheres, o número de vítimas do sexo masculino também está aumentando.

"Esta é uma história de violência sexual brutal, contra a qual a violência foi infligida com o objetivo de destruir não apenas essa pessoa, mas também a família, a sociedade, a comunidade, e tem um alcance considerável", disse Patten.

Citando o fato de que a violência sexual é um crime cronicamente subnotificado devido à vergonha e ao estigma, ela acrescentou: "Isso pode ser apenas a ponta do iceberg", já que a violência sexual envolve medo de represálias e falta de confiança nas instituições judiciais.

Patten também expressou preocupação com o deslocamento em massa durante conflitos recentes, como na Ucrânia e no Sudão, afirmando: "As pessoas deslocadas são extremamente vulneráveis".

Desde 2014, o governo japonês destinou aproximadamente US$ 16 milhões ao gabinete de Patten. Esses recursos foram alocados não apenas para cuidados médicos e psicológicos para sobreviventes, apoio jurídico e assistência para meios de subsistência, mas também para ações em prol da justiça e da responsabilização.

Por exemplo, o financiamento japonês ajudou o Congo a estabelecer uma unidade de investigação de violência sexual, o que levou à condenação de um vereador local envolvido no estupro de mais de 40 crianças.

Em sua posição há quase nove anos, Patten disse: "Continuo otimista" e prometeu continuar trabalhando com parceiros internacionais, incluindo o Japão.

"O que precisamos é de coragem para nos posicionarmos, coragem para nos comprometermos, coragem para nos adaptarmos à realidade dos tempos e para reconstruirmos para um mundo em transformação", acrescentou ela.