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Crianças vítimas da guerra que permaneceram nas Filipinas estão solicitando cidadania japonesa.

Quatro idosos filipinos, filhos de pais japoneses, nascidos durante ou após a Segunda Guerra Mundial, estão lutando contra os tribunais, uma antiga definição de "pai" e o tempo para serem legalmente reconhecidos como cidadãos japoneses.

Os demandantes, todos com cerca de 80 anos de idade, nasceram nas Filipinas, filhos de pais japoneses e mães filipinas.

Apesar dos testes de DNA confirmarem os laços sanguíneos com pais japoneses, os tribunais de família de Tóquio e Naha rejeitaram seus pedidos, em setembro e outubro, para criar os registros familiares necessários para a obtenção da cidadania.

Eles agora estão recorrendo a tribunais superiores, na esperança de obter reconhecimento ainda em vida.

A HISTÓRIA DE JOSÉ ABRIL

Um deles, José Abril, de 82 anos, mora na cidade de San Pablo.

Seu pai, Ginjiro Takei, serviu no exército japonês e desapareceu durante a guerra enquanto a mãe de Abril estava grávida. Segundo a mãe, Takei falava inglês e morou com ela por cerca de um ano.

Abril começou a procurar a família de seu pai na década de 1990, visitando a embaixada japonesa em Manila.

Em 2009, uma investigação do Nikkei-jin Philippine Legal Support Center (PNLSC), uma organização sem fins lucrativos com sede em Tóquio, encontrou o nome de Takei em uma lista mantida pelo Ministério da Saúde do 8º Regimento Ferroviário do Exército Imperial Japonês.

Após a guerra, Takei retornou ao Japão, casou-se com uma japonesa e teve filhos.

Em abril deste ano, Abril, como representante da segunda geração de Nikkei-jin, encontrou-se com o então primeiro-ministro Shigeru Ishiba durante sua visita às Filipinas.

Em agosto, Abril foi ao Japão como parte de um programa do Ministério das Relações Exteriores japonês, visitou o túmulo de seu pai e contou a ele que sua mãe estava muito ansiosa para vê-lo.

Abril também conheceu seu meio-irmão de 73 anos, com quem testes de DNA mostraram uma probabilidade de parentesco de 98,7%.

No entanto, o Tribunal da Família de Tóquio rejeitou o pedido de Abril para criar um registro familiar, alegando que, segundo a antiga lei de nacionalidade, "pai" se referia a um pai legal por casamento, e não simplesmente a um pai biológico.

O tribunal também decidiu que não havia provas suficientes para comprovar que o pai de Abril era japonês.

Os outros três casos foram rejeitados por razões semelhantes.

Abril expressou sua profunda decepção, afirmando que não lhe restava muito tempo para vencer o caso.

O meio-irmão de Abril também afirmou que esperava que o desejo dela fosse atendido.

Ele afirmou acreditar que Abril se parecia com o pai e que esperava que as provas de DNA fossem conclusivas.

A LUTA DE RESA CORIAS ANTIPUESTO

Outra demandante, Rosa Corias Antipuesto, de 82 anos, reside na cidade de Davao.

Seu pai, Koshie Kanashiro, era originário da província de Okinawa, nas Filipinas, e trabalhava como barbeiro antes de ser convocado para o serviço militar durante a Segunda Guerra Mundial.

Ele nunca mais voltou para sua família nas Filipinas.

Antipuesto afirmou que seu pai o chamava de "Masako".

Uma pesquisa realizada pelo PNLSC revelou que Kanashiro era o mais velho de seis irmãos, quatro dos quais morreram durante a guerra.

Em 2023, Antipuesto viajou para Okinawa e conheceu parentes que notaram sua semelhança com a avó.

A esposa de um primo, de 66 anos, expressou sua tristeza pelas dificuldades que Antipuesto enfrentou na infância e pela rejeição do pedido pelo tribunal.

A esposa e Antipuesto rezam para que o recurso dela seja bem-sucedido e que o governo japonês a reconheça como japonesa.

DIREITO E IDENTIDADE

Nos quatro casos, a interpretação do termo "pai" na antiga lei de nacionalidade japonesa foi um ponto de discórdia.

“Eles estão simplesmente pedindo o reconhecimento de sua identidade japonesa”, disse Hiroyuki Kawai, advogado que os representa. “Negar-lhes o reconhecimento porque seus pais não eram casados ​​é uma discriminação flagrante. Lutaremos até que a justiça seja feita.”

A idade média das crianças nascidas de homens japoneses e mulheres filipinas nas Filipinas antes do fim da guerra era de 84 anos.

Nas oito décadas que se seguiram à guerra, muitas dessas crianças morreram sem realizar o seu desejo de obter a cidadania japonesa.

Antes da guerra, aproximadamente 30.000 imigrantes japoneses cultivavam cânhamo e outras culturas nas Filipinas, formando comunidades vibrantes que, em seu auge, chegaram a ter cerca de 30.000 pessoas.

No entanto, quando a Guerra do Pacífico começou, homens japoneses foram mobilizados para o exército. Muitos imigrantes morreram em combate ou foram repatriados à força para o Japão.

Seus filhos ficaram nas Filipinas com as mães.

O sentimento antijaponês nas Filipinas era intenso após a guerra, e as crianças eram vítimas de discriminação.

Eles tentaram esconder suas origens, mas muitos não conseguiram receber uma educação adequada e foram forçados a viver na pobreza.

Naquela época, o Japão e as Filipinas seguiam o princípio da nacionalidade paterna: se o pai fosse japonês, o filho também seria japonês.

No entanto, muitos foram excluídos dos registros familiares devido à ausência de certidões de casamento ou nascimento.

PROGRESSO LENTO

A questão da nacionalidade de segunda geração chamou a atenção no Japão em 1995, por ocasião do 50º aniversário do fim da guerra.

Nessa ocasião, 32 pessoas vieram ao Japão para solicitar a confirmação ou a restauração de sua cidadania japonesa.

Em março deste ano, o Ministério das Relações Exteriores havia identificado 3.815 indivíduos de segunda geração, incluindo aqueles que já haviam falecido ou não puderam ser localizados.

Dentre eles, 1.649 obtiveram a cidadania japonesa, incluindo 329 por meio da criação de registros familiares.

Dos 2.166 que ainda não o fizeram, 134 ainda estão vivos e 50 desejam obter a cidadania.

"Estamos determinados a encontrar uma maneira de realizar o desejo deles de obter a cidadania", disse Norihiro Inomata, co-representante do PNLSC.