Manifestantes vestidos de Pikachu exigem que o Japão cesse o financiamento de combustíveis fósseis na conferência climática da ONU.
BELÉM, Brasil – Manifestantes vestidos de Pokémon marcharam ao redor da conferência climática das Nações Unidas na sexta-feira para enviar uma mensagem ao Japão: acabe com o financiamento de projetos de carvão e gás natural no Sudeste Asiático e em outras partes do Sul.
O protesto "Pare os Planos de Energia Suja do Japão" fez parte do primeiro de dois dias dedicados à energia na conferência anual sobre o clima, conhecida como COP30, realizada este ano em Belém, na orla da Amazônia brasileira. Os organizadores do protesto afirmaram que esses investimentos representam um grande ponto cego para o Japão, que geralmente tem voz regional nas negociações climáticas e frequentemente se apresenta como líder na descarbonização na Ásia.
"O Japão está, na verdade, atrasando a eliminação gradual dos combustíveis fósseis na Ásia" ao financiar projetos de energia, principalmente o desenvolvimento de gás natural liquefeito, em países como Tailândia, Malásia, Indonésia e Filipinas, disse Hiroki Osada, da organização Amigos da Terra Japão, uma das organizadoras da manifestação.
"É muito importante que nossos camaradas do Sul expressem suas preocupações em Belém, para que possam de fato exigir que o governo japonês faça algo a respeito", disse ele.
O Banco Japonês para Cooperação Internacional, estatal, financiou US$ 6,4 bilhões em empréstimos para projetos de carvão e US$ 874 milhões em empréstimos para projetos de gás entre 2016 e 2024, segundo um estudo de 2025 do Centro para Energia, Ecologia e Desenvolvimento, organização de pesquisa e defesa de direitos com sede nas Filipinas, que utilizou dados públicos e bancários. O banco, principal canal de ajuda externa do Japão, não respondeu aos pedidos de comentários.
A delegação japonesa na COP30 respondeu à Associated Press, mas recusou-se a comentar diretamente as alegações dos ativistas. Em vez disso, as autoridades japonesas declararam que a cooperação do Japão com os países do Sudeste Asiático para alcançar simultaneamente "descarbonização, crescimento econômico e segurança energética por diversos meios" contava com o apoio desses países.
Um par de Pikachus em movimento
A manifestação teve como foco duas pessoas vestindo fantasias infláveis de Pikachu em tamanho real, que flanqueavam um pequeno grupo de ativistas.
O evento reuniu ativistas de toda a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), região que abriga diversos projetos de combustíveis fósseis financiados pelo Japão. Uma faixa dizia: “Não gaseiem a ASEAN”. Ian Rivera, coordenador nacional do Movimento Filipino por Justiça Climática, liderou os cânticos de “Só Pokémon, nada de combustíveis fósseis” e “Adeus, combustíveis fósseis”.
Em seguida, os Pikachus visitaram os pavilhões nacionais da Índia, Indonésia e Malásia para "revelar como o Japão exporta seu programa de combustíveis fósseis".
"Se os países do norte, como o Japão, decidirem dobrar sua produção e exportação de combustíveis fósseis, será impossível para os países do sul alcançarem uma transição energética justa", disse Amiera Sawas, chefe de pesquisa e política da Iniciativa do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis.
O protesto do Pikachu, comum em cúpulas recentes, ocorreu entre outras manifestações contra os combustíveis fósseis e aconteceu depois que um protesto na manhã de sexta-feira bloqueou a entrada principal da conferência e aumentou as medidas de segurança na COP30. Mais cedo, ativistas haviam realizado um evento chamado "Fora os Engravatados", exigindo a retirada dos lobistas dos combustíveis fósseis, que ambientalistas acusavam de sabotar as negociações.
No sábado, enquanto se esperam grandes manifestações a meio da COP, uma grande marcha incluirá um "funeral dos combustíveis fósseis", onde caixões gigantes – simbolizando carvão, petróleo e gás – serão carregados pelas ruas de Belém.
Combustíveis fósseis no centro dos debates climáticos da ONU
O esforço global para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis foi um tema central na COP30. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva deu o tom na Cúpula de Líderes da semana passada, ao pedir aos líderes mundiais que preparassem um roteiro para "superar a dependência dos combustíveis fósseis".
Diversos países – como Dinamarca, Reino Unido, Quênia, França e Alemanha – apoiaram o apelo de Lula por medidas concretas.
Na COP28 em Dubai, quase 200 países concordaram em abandonar os combustíveis fósseis, o primeiro compromisso em décadas de negociações climáticas da ONU. Mas muitos alertaram que o acordo ainda apresentava lacunas significativas.
“Na COP30, precisamos de resultados concretos, não de mais um roteiro que não leva a lugar nenhum”, disse Jasper Inventor, diretor adjunto de programas do Greenpeace Internacional. “Embora seja positivo ver progresso em Belém, precisamos garantir que isso realmente leve a um plano claro para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e a aceleração da transição para energias renováveis.”

