O último ato de uma irmã em homenagem ao seu irmão mais velho, morto na explosão de Hiroshima.
HIROSHIMA — Durante anos, o ritual mensal de Hiroko Inagaki foi um ato de devoção. Agora, aos 85 anos, sua tarefa final está concluída.
"Hoje será a última vez que limpo. Sinto muito mesmo", disse Inagaki, com a voz embargada pela emoção, para a lápide que leva o nome de seu irmão mais velho.
Masataka Iwasaki e quase 350 outros alunos da antiga Segunda Escola Secundária da Prefeitura de Hiroshima. morreram durante o bombardeio atômico de Hiroshima em 6 de agosto de 1945.
No dia 8 de julho, Inagaki realizou a última das limpezas mensais do memorial em homenagem a Masataka e seus colegas estudantes.
A saúde frágil e as dores nas costas tornaram a tarefa de limpeza de seis horas impossível para Inagaki.
Apelo daquela manhã fatídica
Para Inagaki, era uma forma de manter-se conectado a Masataka, o irmão gentil e confiável que tinha apenas 13 anos quando faleceu.
Ele acompanhava a irmãzinha ao banheiro quando ela estava com medo, e a rotina diária deles consistia em um simples chamado e uma resposta: seu "Cuide-se" era sempre seguido por um formal "Já vou".
Suas vidas foram viradas de cabeça para baixo apenas dois meses antes do ataque.
Preocupada com os bombardeios aéreos mortais dos Aliados, a mãe evacuou a família da província de Chiba para a casa de seus pais em Hiroshima.
Masataka protestou, querendo ficar com o pai, mas foi trazido quase à força – uma decisão que assombrará sua mãe para sempre.
Na manhã de 6 de agosto, Masataka pareceu ter uma premonição.
"Por favor, deixem-me ficar em casa, só por hoje", implorou ele repetidamente.
Mas sua mãe, insistindo para que ele não matasse aula, o mandou para casa.
Ele partiu de cabeça para se juntar a 320 colegas de classe para um trabalho de demolição a apenas 600 metros do que viria a ser o hipocentro.
VOZES DAS RUÍNAS
Após a casa da família, localizada a 4 quilômetros de distância, ter sido abalada pela explosão, quebrando as portas de vidro, a mãe de Masataka correu para a cidade devastada para encontrá-lo.
Naquela noite, ela voltou de mãos vazias. No dia seguinte, foi a um prédio onde ouviu dizer que havia estudantes reunidos.
Ela gritou "Masataka" e uma figura surgiu. "Sou eu", disse uma voz.
Mas seu rosto estava tão inchado e sua pele tão derretida e queimada que cobria seus olhos.
"Você é mesmo o Masataka?", perguntou ela, sem reconhecer o próprio filho.
"Sou eu", murmurou ele. A pele de seus braços estava solta, presa apenas pelas unhas. Ela só percebeu quando viu seu distintivo intacto.
Após ser levado para casa, Masataka, provavelmente com os nervos à flor da pele, não demonstrou nenhum sinal de dor.
Ele relatou o horror.
"Todos morreram", disse ele. "A bomba caiu bem na minha frente. Imediatamente pulei no rio próximo, mas a água estava fervendo."
Ele descreveu como seus amigos foram arrastados pelas águas e como, após a maré subir, ele caiu em terra firme, cego e perdido.
No dia 8 de agosto, um médico examinou o menino e declarou: "Não há esperança para ele".
Ao ouvir isso, Masataka se virou para sua mãe.
"Ele disse que não havia esperança para mim, não disse?"
Poucos instantes depois, ele rangeu os dentes e morreu.
A CULPA DE UMA MÃE PARA O RESTO DA VIDA
Sua mãe, que antes era voluntária, ficou devastada pela culpa. Ela passava os dias em silêncio, acreditando que havia matado o próprio filho.
Em 1961, quando o memorial foi erguido, os pais de Inagaki começaram seu próprio ritual. Todos os anos, eles iam até o rio onde Masataka havia pulado, buscavam água para misturar a tinta e passavam dias retocando meticulosamente os nomes desbotados no monumento.
"Minha mãe reclamava: 'Eu o matei', até o dia em que ele morreu", lembra Inagaki. "Acho que ela estava repassando os nomes, um por um, como se estivesse escrevendo uma carta de desculpas."
TRANSMITIR O RELÓGIO
Após a morte de seus pais, Inagaki herdou a missão deles, transformando-a de uma reforma anual em uma limpeza mensal.
Enquanto limpava a pedra pela última vez, recolhendo folhas e detritos, as lembranças trouxeram novas lágrimas aos seus olhos.
Seus anos de limpeza e polimento chegaram ao fim. Mas, com a aproximação do 81º aniversário da tragédia, Inagaki está determinada a continuar visitando o local onde seu irmão repousa.
"Trarei flores e chá novamente no próximo mês", prometeu ela antes de se afastar do memorial.

