Discurso de Osaka desafia a compreensão das alegrias e provações de viver no exterior
Estudantes internacionais se tornaram uma visão comum no Japão, trabalhando em lojas de conveniência e restaurantes em cidades por todo o país.
No entanto, as histórias pessoais por trás de suas jornadas — as lutas, pequenas vitórias e ambições que carregam — raramente são ouvidas.
Esse silêncio contrasta com um número impressionante: o número de estudantes internacionais matriculados em escolas de língua japonesa ultrapassou 100.000 pela primeira vez no último ano fiscal, de acordo com uma pesquisa recente da Organização de Serviços Estudantis do Japão (Jasso).
Por trás de cada estatística existe um caminho individual, muitas vezes definido tanto pela luta e resiliência quanto pela esperança.
Algumas dessas histórias chegaram ao público de Osaka no início de setembro, quando jovens homens e mulheres de toda a Ásia e de outros lugares compartilharam trechos de suas vidas em uma competição de oratória em japonês.
No distrito de Higashinari, em Osaka, uma área densamente povoada conhecida por seu caráter de classe trabalhadora, a Escola de Língua Japonesa Ebisu está localizada a poucos passos da Estação Tamatsukuri, na Linha Osaka Loop da Jr West.
Quando foi inaugurada em 2019, a escola tinha apenas dois alunos. Hoje, mais de 260 alunos lotam suas salas de aula. A maioria dos alunos está entre o final da adolescência e o início dos 20 anos, com os maiores grupos vindos da China, Mianmar e Nepal.
A competição anual de oratória da escola, realizada em 8 de setembro, deu vida a essa diversidade, com um salão comunitário local repleto de aplausos, assobios e gritos de incentivo. Dezesseis competidores, cada um representando sua respectiva turma, subiram ao palco para compartilhar suas histórias.
Para muitos estudantes que estudam no exterior, o maior obstáculo no Japão continua sendo o próprio idioma. Por mais dedicados que estudem em casa, o japonês que encontram no dia a dia raramente é a língua dos livros didáticos — e o desafio adicional dos dialetos regionais só agrava a lacuna.
Ei Zin Phyo, uma jovem de Mianmar que se matriculou na escola de idiomas em abril, começou a trabalhar meio período em um restaurante quase assim que chegou ao Japão.
“Os clientes falavam tão rápido que eu não conseguia entender o que diziam, e meus colegas mais experientes me repreendiam repetidamente por não lidar com as coisas direito”, lembra ela. “Às vezes, eu até chorava no caminho para casa.”
Um dia, porém, um colega nepalês ofereceu algumas palavras simples de conforto: “Eu passei pela mesma coisa, sabia?”
Para Ei Zin Phyo, esse momento de empatia "de repente fez meu coração bater mais forte".
Perceber que não estava sozinha em sua luta lhe deu a determinação para continuar. Com o tempo, as reprimendas diminuíram, substituídas por elogios de seus colegas.
“A verdadeira força não está em nunca chorar”, disse ela à plateia. “É ter a coragem de pedir ajuda em momentos difíceis e a resiliência para se recuperar após o fracasso.”
Seu objetivo, ela acrescentou, é estudar em uma universidade nacional no Japão.
Novos capítulos e interesses
Nem todos os discursos foram solenes. Outra estudante de Mianmar relatou sua perplexidade diante do labirinto de botões em um vaso sanitário japonês e como, em seus primeiros dias, respondia a cada comentário com um simples "hai, hai" — uma frase que pode significar "sim", "isso mesmo" ou simplesmente "entendi".
Quando um dos jurados a aconselhou a parar de dizer "Hai" para coisas que ela realmente não entendia, ela respondeu com outro alegre "hai!" — fazendo a sala cair na gargalhada.
Por trás do riso, no entanto, havia uma verdade preocupante. A agitação contínua em Mianmar — incluindo o recrutamento militar forçado e a repressão a cidadãos — tem levado muitos jovens ao exterior em busca de trabalho ou estudo.
Um estudante do problemático país do Sudeste Asiático admitiu que foi forçado a abandonar a universidade sem um diploma e desistir de tentar um emprego em seu país.
Sua conclusão foi Stark: "Decidi parar de perseguir meus sonhos."
O Nepal, agora um dos maiores polos de estudantes de língua japonesa, juntamente com a China, também se fez ouvir. O nepalês Bal Bahadur falou sobre a perda devastadora de um amigo morto em um acidente de trânsito no Japão.
Para muitos estudantes internacionais, as bicicletas são um meio de transporte essencial. Ele usou seu discurso para fazer um apelo sincero: “Por favor, usem sempre capacetes. Somos tesouros de nossas famílias. Cuidem-se.”
A estudante vietnamita Khuat Thi Thanh Huyen relembrou como seu exame de admissão ao ensino médio a deixou não apenas decepcionada consigo mesma, mas também com as pessoas ao seu redor.
Desmotivada e à deriva, ela lutou para encontrar direção – até que um encontro casual mudou o curso de sua vida.
"Um dia me deparei com animes japoneses", disse ela. "Achei essa linguagem interessante."
Essa centelha de curiosidade a levou a começar a estudar japonês e, por fim, ao Japão, onde passou quatro anos como estagiária de enfermagem. Após retornar ao país, construiu uma carreira como intérprete e guia turística.
"A percepção das pessoas sobre mim mudou", explicou ela. "Até eu fiquei surpresa com o que eu poderia alcançar profissionalmente."
Agora, ela está de olho nos estudos de administração em uma universidade japonesa. Para se preparar, matriculou-se na Escola Secundária Ebisu na primavera.
“Aprender é meu propósito de vida agora”, ela disse com convicção.
Sua trajetória reflete a de muitos outros. Segundo Jasso, 80% dos alunos formados em escolas de língua japonesa no ano fiscal de 2023 cursaram o ensino superior no Japão, enquanto outros 10% ingressaram no mercado de trabalho local.

