O primeiro-ministro japonês, Takaichi, está considerando revisar princípios de longa data sobre armas não nucleares.
TÓQUIO – A primeira-ministra Sanae Takaichi está considerando uma revisão dos princípios de longa data do Japão sobre armas não nucleares, disseram fontes do governo nesta sexta-feira, uma medida que representaria uma grande mudança na política de segurança do país, que enfrenta um ambiente de segurança desafiador.
O Japão, único país a ter sofrido bombardeios atômicos, aderiu a três princípios: não possuir, produzir ou permitir a introdução de armas nucleares. No entanto, o terceiro princípio é considerado por alguns como um enfraquecimento da eficácia da dissuasão nuclear proporcionada por seu aliado, os Estados Unidos.
Essa revisão está sendo considerada, visto que o governo liderado por Takaichi, interessado em fortalecer as capacidades de defesa do Japão, planeja atualizar a estratégia de segurança nacional de longo prazo e o programa de fortalecimento da defesa pela primeira vez desde 2022, em meio à crescente preocupação com as atividades militares da China, Coreia do Norte e Rússia, países que possuem armas nucleares.
Apesar de manter uma constituição pacifista, o Japão relaxou significativamente suas restrições de defesa do pós-guerra na última década. Além disso, depende da dissuasão nuclear americana para sua proteção, o que alguns críticos consideram contraditório aos Três Princípios Não Nucleares.
A busca por uma mudança em sua política nuclear fundamental certamente provocará reações negativas nos níveis nacional e internacional, pois contraria os esforços para alcançar um mundo sem armas nucleares, um desejo fervoroso dos sobreviventes da bomba atômica no Japão.
Os três princípios não nucleares foram declarados pela primeira vez à Dieta pelo então primeiro-ministro japonês Eisaku Sato, em 1967, e passaram a ser considerados um credo nacional. Sato recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1974 por essa declaração e por suas contribuições para a paz.
Segundo fontes, Takaichi não tem intenção de rever os dois princípios de não posse e não produção de armas nucleares, visto que o Japão é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, que considera a pedra angular do regime internacional de desarmamento nuclear.
Mas Takaichi teme que a adesão ao outro princípio, que é o de proibir a introdução de armas nucleares no Japão, possa dificultar a entrada em portos de navios americanos equipados com armas nucleares, enfraquecendo assim a percepção de dissuasão nuclear em caso de emergência, disseram as fontes.
Alguns membros do governo e do Partido Liberal Democrático, no poder, acreditam que a nova estratégia de segurança nacional deve evitar estipular o compromisso do Japão com os três princípios ou usar uma formulação diferente para o princípio introdutório.
Espera-se que o Partido Liberal Democrático (PLD) inicie em breve as negociações para atualizar a estratégia de segurança e documentos relacionados, com o objetivo de finalizar uma proposta até a próxima primavera. Essas discussões abrirão caminho para que o governo revise os documentos de segurança até o final do próximo ano.
A estratégia de 2022 afirma que o Japão "aderirá à política fundamental de manter uma postura focada exclusivamente na defesa nacional, não se tornando uma potência militar que represente uma ameaça para outros países e respeitando os três princípios não nucleares".
Takaichi, que assumiu o cargo de primeiro-ministro em 21 de outubro, recusou-se a comentar no Parlamento se o compromisso com os três princípios seria mantido nos novos documentos de política de segurança, alegando que não era o momento apropriado para se pronunciar sobre o assunto.
Os três princípios não nucleares foram alvo de intenso escrutínio há mais de uma década, quando um comitê do Ministério das Relações Exteriores do Japão reconheceu a existência de um pacto secreto entre o Japão e os Estados Unidos durante a Guerra Fria, que levou Tóquio a permitir que navios americanos com armas nucleares visitassem portos japoneses sem consulta prévia.
O ex-ministro das Relações Exteriores, Katsuya Okada, que trabalhou para descobrir o acordo durante o período em que o PLD não estava no poder, disse ao Parlamento em 2010 que "uma decisão" precisava ser tomada em relação às circunstâncias de segurança nacional que permitiriam a entrada de um navio transportando armas nucleares em um porto japonês.
Como essas observações poderiam ser vagamente interpretadas como uma autorização para a entrada de tais navios em caso de emergência, alguns membros do PLD questionaram a necessidade de ir tão longe a ponto de revisar os três princípios não nucleares.

