Os "solteiros seletivos" do Japão estão optando pela maternidade por meio de bancos de esperma no exterior.
TÓQUIO — Entre o número crescente de "solteiros seletivos" no Japão — pessoas que optam por não se casar — estão mulheres que decidem se tornar mães por meio da doação de esperma.
Embora sintam um profundo desejo de ter filhos, essas mulheres muitas vezes são levadas a evitar relacionamentos devido a circunstâncias pessoais complexas, como uma experiência de abuso.
Como o Japão não possui um arcabouço legal claro para a doação de esperma por terceiros, algumas mulheres recorrem a bancos de esperma no exterior como o único caminho viável para a maternidade.
“A doação de esperma foi um vislumbre de esperança”, diz uma mulher de 43 anos que vive em Tóquio. Depois de usar um banco de esperma no exterior e se submeter à fertilização in vitro (FIV), ela deu à luz no ano passado. Ela havia se casado aos vinte e poucos anos, mas se divorciou após sofrer abuso psicológico do marido.
Embora mais tarde tenha considerado casar-se novamente, seu desconforto persistente com os homens a impediu de buscar outro relacionamento romântico.
Na esperança de manter suas opções em aberto, ela congelou seus óvulos quando ainda estava na casa dos trinta. Mas, com o passar dos anos, sua ansiedade em relação ao futuro aumentou.
O ponto de virada para essa mulher aconteceu depois que ela completou 40 anos, quando se deparou com um blog escrito por outra mulher que havia usado um banco de esperma no exterior para ter um filho.
Depois de ler o blog, ela se pegou pensando: "Você pode ter um filho mesmo sem um parceiro."
Embora inicialmente hesitante em engravidar e dar à luz usando esperma de doador, ela acabou decidindo prosseguir.
Agora mãe, ela concilia os cuidados com os filhos e um emprego em tempo integral. "Sou o sustento da minha família. Não posso me dar ao luxo de tirar uma licença", diz ela, explicando que voltou ao trabalho apenas dois meses após dar à luz.
Ela também mantém contato com outras mães solteiras que fizeram escolhas semelhantes, ocasionalmente colaborando com os cuidados infantis e compartilhando suas experiências.
Outra mulher de Tóquio, de 36 anos, está se preparando para uma gravidez usando esperma de um doador estrangeiro. Tendo sido abusada sexualmente pelo pai, ela tem muita dificuldade em se relacionar com homens.
Para ela, a doação de esperma ofereceu uma maneira de continuar sendo mãe, respeitando seus limites emocionais. "Não é uma decisão tomada de forma leviana", afirma com firmeza.
No Japão, procedimentos como inseminação artificial ou fertilização in vitro (FIV) com o uso de espermatozoides ou óvulos doados se enquadram no que é conhecido como "tecnologia de reprodução assistida específica".
Embora a tecnologia médica nesta área tenha progredido, o sistema jurídico japonês não acompanhou esse ritmo.
Atualmente, as diretrizes da Sociedade Japonesa de Obstetrícia e Ginecologia estipulam que a inseminação artificial com sêmen de doador só é permitida para casais legalmente casados.
A fertilização in vitro também se restringe a casais casados ou em união estável. Pessoas solteiras estão excluídas do tratamento de acordo com essas regras.
Apesar disso, um pequeno número de instalações médicas no Japão aceita discretamente mulheres solteiras que utilizam bancos de esperma no exterior.
A conselheira de infertilidade Hiromi Ito explica: "Algumas clínicas acreditam que o acesso aos cuidados médicos não deve ser seletivo e que a felicidade de uma criança não é determinada pela estrutura familiar."
No entanto, as tecnologias de reprodução assistida podem apresentar desafios potenciais, incluindo relações complexas entre pais e filhos e riscos à saúde, como doenças infecciosas.
Como a identidade dos doadores costuma ser anônima, o "direito da criança de conhecer suas origens" também pode ser comprometido.
“Não sei se esta é a resposta certa”, disse uma mãe, “mas quero compartilhar o máximo de informações possível com meu filho. Também espero construir uma comunidade onde crianças que vivenciam situações semelhantes possam se conectar e crescer com um forte senso de identidade.”

