Um livro ilustrado russo narra a evacuação japonesa de Sakhalin.
MOSCOU – Um livro ilustrado publicado no ano passado na Rússia examina as experiências de civis japoneses que foram forçados a deixar Karafuto, localizada na atual Ilha de Sacalina, no Extremo Oriente russo, no final da Segunda Guerra Mundial, um tema que recebeu pouca atenção no país.
Intitulado "O Esplendor de Karafuto", o livro retrata a amizade entre uma mulher japonesa e uma mulher russa e se passa em Karafuto, a parte sul de Sakhalin que o Japão governou até sua derrota em 1945.
A história retrata o deslocamento de residentes japoneses após a invasão soviética da ilha em agosto daquele mesmo ano.
A autora, Elena Golovanova, mora em Ravenna, no norte da Itália, e escreve para revistas russas de estilo de vida. Ela disse que a ideia para o livro começou a tomar forma em 2021, quando retornou temporariamente à Rússia.
Ao visitar um café na cidade de Tyumen, na região central do país, Golovanova notou uma tigela de chá em exposição com a etiqueta "Cerâmica Japonesa do Início do Século XX". Ela perguntou a um funcionário do café por que havia um objeto japonês ali e foi informada de que tais objetos estavam sendo escavados em Sakhalin.
Mais tarde, Golovanova descobriu que utensílios domésticos do período de domínio japonês ainda podem ser encontrados na ilha e que artistas às vezes coletam fragmentos de cerâmica e os transformam em peças decorativas.
O interesse dela por Karafuto também foi influenciado por conversas com sua amiga Miki Homma, que mora em Ravenna e é originária de Sapporo, no norte do Japão.
Homma contou a Golovanova que seu pai havia fugido de Toyohara, também em Sakhalin e agora chamada Yuzhno-Sakhalinsk, com seus pais aos 9 anos de idade durante a invasão soviética, retornando eventualmente a Hokkaido.
Quando Golovanova mencionou as tigelas de chá encontradas em Sakhalin, Homma refletiu sobre o passado de sua própria família. "Acho que as nossas provavelmente também estão enterradas em algum lugar", disse ela.
Sem conseguir tirar o assunto da cabeça, Golovanova decidiu criar um livro ilustrado. Ela estudou a história de Karafuto usando documentos e palestras antes de desenvolver a narrativa.
O livro acompanha Ayako, uma menina japonesa de oito anos que vive em Karafuto no final da guerra. No outono de 1946, as autoridades soviéticas ordenaram que sua família evacuasse em 24 horas. Com pouco tempo para se preparar e sem poder levar a maioria de seus pertences, Ayako enterra sua xícara de chá favorita — decorada com um coelho — em uma floresta, na esperança de que um dia ela retorne para buscá-la.
A história então avança algumas décadas, até o outono de 2025. A neta de Ayako, Fumiko, viaja para Sakhalin com seus pais. Lá, ela faz amizade com uma garota russa local chamada Marina.
Quando as duas meninas se separam, Marina dá a Fumiko um colar feito com um fragmento de cerâmica que ela encontrou na praia e guardou como um objeto precioso. O fragmento tem a imagem de um coelho.
De volta para casa, Fumiko mostra o colar para Ayako. Ao ver o coelho, os dedos de Ayako tremem ao reconhecer o desenho.
O livro foi publicado pela editora Polyandria, sediada em São Petersburgo. Em comunicado, a editora descreveu a obra como uma representação de histórias pessoais dentro de um contexto histórico mais amplo, acrescentando que a escrita foi cuidadosamente elaborada.
Golovanova afirmou que sua própria história familiar influenciou o projeto.
Sua avó foi exilada da Rússia para a Ásia Central na década de 1930, durante a ditadura de Josef Stalin.
“Infelizmente, os refugiados continuam sendo um tema importante no mundo, tanto no passado quanto no presente”, disse Golovanova. “Eu queria descrever isso.”

