Vídeos de agressões a estudantes revelam uma nova face do assédio no Japão.
UTSUNOMIYA, Japão – Uma série de vídeos virais mostrando estudantes agredindo seus colegas desencadeou investigações policiais, intervenções em escolas e uma onda de abusos online, destacando os crescentes riscos de violência amplificados pelas redes sociais.
Em janeiro, um vídeo amplamente compartilhado mostrou um estudante de uma escola secundária da província de Tochigi, ao norte de Tóquio, agredindo outro estudante. As imagens, que circularam rapidamente online, levaram os promotores de Utsunomiya a encaminhar o caso do estudante ao tribunal de família sob suspeita de lesão corporal.
Quase simultaneamente, vídeos semelhantes da cidade de Oita, no sudoeste do Japão, mostrando estudantes se agredindo, também viralizaram. O conselho escolar da cidade classificou o caso como um "incidente grave" de bullying.
O caso de Tochigi atraiu muita atenção depois que um vídeo veio à tona em 4 de janeiro, mostrando um aluno cercado por vários outros em um banheiro da escola, onde ele foi repetidamente agredido com socos por um deles. O vídeo, gravado na escola em dezembro, rapidamente alcançou mais de 100 milhões de visualizações.
Segundo o conselho de educação da prefeitura, os professores não tinham conhecimento do incidente no momento em que ocorreu. Com a circulação do vídeo, a direção da escola e o conselho escolar receberam mais de 1.500 reclamações e solicitações de informações.
As redes sociais foram rapidamente inundadas com mensagens tentando identificar os envolvidos, além de comentários abusivos e ameaçadores. Algumas dessas mensagens levantaram preocupações sobre a segurança dos alunos, levando alguns clubes escolares a desistirem de competições programadas.
A polícia reagiu após analisar as imagens e interrogar os envolvidos, encaminhando o estudante ao Ministério Público em 5 de fevereiro sob suspeita de lesão corporal. O caso foi então encaminhado ao tribunal de família em 2 de março.
Um oficial da polícia afirmou que, mesmo quando menores estão envolvidos, os atos de violência constituem crimes, acrescentando que as autoridades agiram rapidamente para evitar maiores danos, incluindo difamação online.
No caso de Oita, foram identificados três vídeos distintos que mostravam violência entre alunos do ensino fundamental II, todos classificados como incidentes graves de assédio, de acordo com a lei de promoção de medidas de prevenção ao assédio.
Em Osaka, outro vídeo circulou amplamente mostrando um estudante sendo empurrado para o mar enquanto brincava perto da praia com outros alunos do ensino fundamental e médio.
A série de incidentes finalmente motivou uma resposta nacional. Em 3 de março, o Ministério da Educação divulgou vídeos com o objetivo de prevenir o assédio e promover a ética na mídia. Os conselhos escolares de todo o país foram informados e incentivados a utilizar os materiais nas escolas.
Especialistas afirmam que a rápida disseminação desses vídeos reflete mudanças mais amplas na forma como o assédio ocorre e é exposto.
Mieko Miyata, diretora de um instituto de pesquisa sem fins lucrativos especializado em segurança infantil, destacou que o uso generalizado de smartphones e redes sociais foi um fator crucial.
“Agora, os alunos podem filmar e compartilhar esses incidentes com facilidade”, disse Miyata. “Os ambientes fechados em que o bullying costumava ocorrer não são mais a norma.”
A advogada Mami Takeyama afirmou que as publicações online que visam indivíduos nesses vídeos têm grande probabilidade de constituir crimes ou violações dos direitos humanos. "Uma vez compartilhadas, as imagens não podem ser completamente apagadas, criando riscos a longo prazo tanto para as vítimas quanto para os agressores", disse ela.
Takeyama incentivou as vítimas e testemunhas de bullying ou violência a denunciarem o ocorrido às escolas ou à polícia, em vez de publicarem online, afirmando que isso é essencial para resolver adequadamente os incidentes e evitar maiores danos causados pela rápida disseminação de informações nas redes sociais.

