ANÁLISE/A lógica de "proibição de presentes" orienta as novas regras de residência permanente
O governo japonês anunciou uma reformulação radical de suas diretrizes de residência permanente, explicitamente concebida para limitar o uso de assistência pública por estrangeiros, impondo requisitos de renda significativamente mais elevados.
A revisão proposta pela Agência de Serviços de Imigração, oficialmente divulgada em 4 de agosto, exigirá que a renda familiar do solicitante exceda sistematicamente a renda média das famílias japonesas.
A lei também introduz um novo critério relacionado à previdência, exigindo que os benefícios futuros projetados do candidato correspondam ao que ele receberia após 30 anos de contribuições para o plano de previdência empresarial "kosei nenkin" nesse nível de renda mais elevado.
Essa revisão é o culminar de uma longa oposição política à ideia de cidadãos estrangeiros receberem assistência pública e formaliza uma mudança de política que ganhou impulso durante o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi.
A pressão por regras mais rígidas começou durante o governo anterior de Shigeru Ishiba, mas se intensificou desde a formação do gabinete de Takaichi em outubro.
MAIS "DICAS PARA A VIDA"
Para levar adiante esse esforço, o governo Takaichi criou um novo cargo no Gabinete: Ministro responsável por Uma sociedade de coexistência ordenada e harmoniosa com estrangeiros.
Kimi Onoda foi nomeada para este cargo e, sob sua liderança, o governo buscou o que chama de "implementação adequada" de sistemas acessíveis a estrangeiros.
Desde o início, a assistência pública foi identificada como um alvo fundamental para revisão, juntamente com a repressão de impostos não pagos, contribuições para a segurança social e contas médicas.
Onoda já era um crítico ferrenho, tendo argumentado em um tweet de novembro de 2021 a favor da "eliminação da ajuda pública a estrangeiros".
Ela criticou um sistema que permite que uma pessoa obtenha residência permanente com base na renda, apenas para depois se tornar elegível para assistência social, perguntando: "É simplesmente ridículo, não é?"
Ela acrescentou: "É natural que estrangeiros que não conseguem se sustentar retornem ao seu país de origem. Garantir seus meios de subsistência é responsabilidade do país de sua nacionalidade."
Um funcionário do governo, falando ao fundo, disse que Onoda havia pedido ao seu ministério para "garantir que os sistemas japoneses não sejam transformados em ferramentas de apoio para estrangeiros".
O PROBLEMA DOS 1,96%
Embora a posição oficial do governo seja de que os cidadãos estrangeiros não estão abrangidos pela Lei de Assistência Pública, um aviso administrativo de 1954 do antigo Ministério da Saúde autorizou pagamentos por razões humanitárias a grupos que incluem residentes permanentes, coreanos étnicos e refugiados.
Segundo o Ministério da Saúde, dos aproximadamente 2.008.000 beneficiários de assistência pública durante o ano fiscal de 2024, cerca de 65.000 pertenciam a famílias chefiadas por estrangeiros, representando 3,24% do total.
Essa questão gerou fortes críticas do partido governista e de setores da oposição, como o Sanseito, que no ano passado pediu "a proibição da concessão de auxílio público a estrangeiros".
A justificativa do governo para as novas regras baseia-se em uma pesquisa realizada antes da revisão.
O estudo revelou que a taxa de beneficiários de assistência pública entre residentes permanentes não japoneses foi de 1,96%, ligeiramente superior à taxa de 1,62% para a população em geral.
Como as diretrizes atuais já estabelecem que os residentes permanentes "não devem se tornar um fardo para o Estado", as autoridades disseram que consideram a taxa de 1,96% "alta para uma taxa de beneficiários entre os residentes permanentes que passaram pela triagem".
Autoridades afirmam que esses dados justificam a utilização de padrões econômicos mais elevados na fase de demanda, a fim de evitar a dependência futura de auxílio público.
UM BISCOITO MAIS LARGO
Esta é a mais recente de uma série de medidas destinadas a apertar o cerco.
A partir de outubro do próximo ano, as taxas para solicitar residência permanente aumentarão vinte vezes, passando de 10.000 ienes (US$ 63,50) para 200.000 ienes.
E a partir de abril do próximo ano, as autoridades poderão revogar a residência permanente daqueles que intencionalmente deixarem de pagar seus impostos ou contribuições para a seguridade social.
No final de 2025, os residentes permanentes constituíam o maior grupo de estrangeiros no Japão, totalizando cerca de 947.000 pessoas, de um total aproximado de 4.125.000.
Nos últimos anos, esse grupo demográfico aumentou em mais de 25.000 pessoas por ano.
Um funcionário da Agência de Serviços de Imigração previu que, com essa revisão, "é provável que a emissão de novas autorizações diminua significativamente".
UM "FREIO ECONÔMICO" CRAID
Os críticos alertam que essa política está errada.
Kim Kwang-min, professor da Universidade Tokiwakai de Osaka e defensor de estrangeiros, afirmou que a proposta era irracional, pois muitas pessoas, incluindo cidadãos japoneses, trabalham em setores de baixa remuneração e não conseguem atingir o patamar de renda elevado.
"Isso frustra as esperanças das pessoas que já vivem no Japão e funcionará como um freio econômico, afastando futuros trabalhadores", disse Kim. "Temo que ideias xenófobas levem o governo a avaliar mal a situação."
A Agência de Serviços de Imigração aceitará comentários públicos sobre a proposta durante um mês, a partir de 4 de agosto, e as novas diretrizes entrarão em vigor em 1º de outubro.
Para evitar um aumento repentino no número de solicitações, a agência informou que os novos padrões de renda serão aplicados retroativamente a todas as solicitações apresentadas desde abril.
(Este artigo foi escrito por Yuki Nikaido e Takuya Asakura.)

