AVISO: O Japão deve pôr fim à sua obscura diplomacia dupla em Myanmar e priorizar a ajuda em detrimento da China.
TÓQUIO – Em Myanmar, um governo pró-militar foi estabelecido em abril deste ano, após eleições gerais orquestradas pelo exército, que havia realizado um golpe de Estado em 2021. Isso não é uma democratização, mas sim um regime militar no qual o exército simplesmente retirou seus uniformes, disfarçando o controle militar como democracia.
O regime militar, que prendeu Aung San Suu Kyi — um símbolo da democracia e ex-conselheira de Estado — e a manteve como refém, foi amplamente condenado pela comunidade internacional. O Japão também se absteve de enviar um embaixador e reduziu o nível das relações diplomáticas. Embora tenha suspendido novos projetos de ajuda ao desenvolvimento, aqueles já em andamento continuam, levantando sérias preocupações de que o dinheiro dos contribuintes japoneses possa acabar nas mãos dos militares e de empresas ligadas às forças armadas.
Myanmar tornou-se cada vez mais dependente da China e da Rússia, com as quais mantém laços estreitos. Enquanto isso, o governo japonês, ansioso por conter a China, busca contatos discretos com representantes e altos funcionários do governo pró-militar de Myanmar, bem como com indivíduos ligados ao regime militar. Se o Japão tratar Myanmar como um mero peão em sua política para com a China e mantiver uma relação ambígua com a junta militar, estará também abandonando o povo de Myanmar.
O exército realizou repetidos ataques aéreos, incendiou aldeias controladas pelas forças da oposição e aterrorizou civis. Segundo agências da ONU, o número de deslocados internos chegou a aproximadamente 4 milhões, enquanto muitos outros fugiram do país. Um regime que mata e tortura seu próprio povo não tem apoio nem legitimidade.
Desde a fundação do país em 1948, os militares exercem influência sobre a administração, o judiciário, a polícia, as empresas estatais, os recursos naturais, o comércio fronteiriço e até mesmo uma parte da comunidade budista, tornando-se praticamente indistinguíveis do próprio Estado. Os líderes militares que controlam tanto a política quanto a economia não têm intenção de abrir mão do poder.
O que os militares mais temem é Aung San Suu Kyi. Símbolo do movimento pró-democracia, ela se opõe ao regime militar desde o final da década de 1980. Ela não se submeteu à prisão ou ao confinamento domiciliar e conquistou amplo apoio popular. Sua luta não violenta foi reconhecida internacionalmente e ela recebeu o Prêmio Nobel da Paz.
Anos de esforços em prol da democratização culminaram no estabelecimento de um governo liderado pela Liga Nacional para a Democracia (LND) após sua vitória esmagadora nas eleições gerais de 2015. A LND também obteve uma vitória decisiva nas eleições de 2020; contudo, no dia em que os legisladores recém-eleitos deveriam se reunir para sua primeira sessão parlamentar, os militares derrubaram a vontade popular em um golpe de Estado. O regime militar, subsequentemente, dissolveu a LND e a proibiu de participar das eleições gerais mais recentes.
O exército prendeu a idosa Suu Kyi e impôs-lhe uma longa pena de prisão com base em acusações unilaterais. Ela está impedida de ver sua família, o que levanta sérias preocupações sobre a deterioração de sua saúde.
A China ampliou sua influência sobre o regime militar ao mediar a paz em conflitos envolvendo minorias étnicas. Seu objetivo é garantir o acesso ao Oceano Índico através da Baía de Bengala. Os interesses das grandes potências e os cálculos estratégicos dos militares estão sendo priorizados em detrimento dos civis.
O Japão deve aumentar ainda mais sua ajuda humanitária. No entanto, se essa ajuda for entregue por meio das forças armadas, poderá se tornar uma ferramenta para fortalecer o controle do regime militar. Portanto, o Japão deve utilizar canais que não envolvam os militares, como ajuda transfronteiriça e assistência por meio de áreas de minorias étnicas e organizações da sociedade civil. O diálogo ativo com as forças pró-democracia, grupos de minorias étnicas e a sociedade civil deve ser fundamental em seus esforços diplomáticos.
O Japão deve instar o governo pró-militar a libertar Aung San Suu Kyi e outros, a pôr fim aos ataques aéreos e a dialogar com as forças pró-democracia e a sociedade civil, mantendo, ao mesmo tempo, uma posição firme contra o regime militar. O Japão deve estar ao lado do povo de Myanmar em seu anseio por liberdade, pois o verdadeiro valor de sua diplomacia está sendo posto à prova neste momento.
Liberdade e democracia não devem ser meros slogans usados apenas quando conveniente. Palavras por si só não podem proteger vidas, e o silêncio equivale à aprovação tácita do regime militar. O que a diplomacia japonesa precisa são palavras respaldadas por ações decisivas.
(Masaaki Fukunaga, professor visitante da Universidade Feminina de Gifu, possui doutorado em Sociologia pela Escola de Pós-Graduação da Universidade Hindu de Banaras, na Índia. Ele é especialista em sociedade indiana e estudos do Sul da Ásia.)

