Pais monstruosos levam professores japoneses ao limite.

Pais monstruosos levam professores japoneses ao limite.

TÓQUIO – Para alguns professores no Japão, a parte mais difícil do trabalho não acontece na sala de aula. Ela se manifesta em telefonemas noturnos, confrontos prolongados e exigências implacáveis ​​dos chamados pais "monstros" – um problema crescente que está levando os educadores ao limite.

Certa tarde, durante as férias, o celular de um professor na casa dos vinte anos, que mora na região de Kansai, tocou. Ele supervisiona um clube escolar, e a pessoa que ligou, pai de um de seus alunos, imediatamente começou um discurso furioso.

"Por que meu filho não é titular absoluto no time?"

O professor tinha certeza de que nunca havia dado seu número pessoal ao pai. No entanto, ao refletir, percebeu que já havia ligado para outro pai em uma emergência e que seu número poderia ter sido compartilhado sem seu consentimento.

Em pouco tempo, as ligações dos pais tornaram-se frequentes – de manhã, à noite e até mesmo nos fins de semana, durante a semana.

Quando ele tentou explicar a situação, os pais permaneceram céticos. Alguns dias depois, os pais do aluno foram à escola para registrar a queixa pessoalmente.

"Lidar com esse tipo de reclamação exige um esforço enorme", suspirou a professora.

Essas reuniões têm se tornado cada vez mais comuns. Em dezembro passado, o Conselho Metropolitano de Educação de Tóquio publicou uma minuta de diretriz afirmando que exigências excessivas dos pais podem constituir "assédio ao cliente" — exigências ou ações descabidas por parte dos clientes ou de outras partes envolvidas que contrariam as normas socialmente aceitáveis.

Essa decisão reflete uma crescente preocupação com a pressão que pais agressivos exercem sobre os educadores.

Quando pais da região de Kansai visitaram a escola, reclamaram em tom questionador, exigindo respostas não apenas sobre as partidas oficiais, mas também sobre a seleção de jogadores para os jogos-treino. Insistiram na presença de administradores da escola, o que levou a uma reunião formal com o vice-diretor.

"Eu entendo os sentimentos dos pais", disse a professora. "Mas existe um limite para o número de jogadores que podem participar de uma partida."

Os professores afirmam que, mesmo quando os próprios alunos aceitam essas decisões, os pais muitas vezes não o fazem.

Em outra escola na região metropolitana de Tóquio, um professor veterano se viu esperando até tarde da noite por um pai que havia solicitado uma reunião. Os pais às vezes aparecem nas escolas depois que seus filhos são repreendidos por quebrar as regras, mas, neste caso, o pai disse que só poderia vir tarde da noite por causa do trabalho.

A reunião finalmente começou às 23h. No final, porém, a professora perdeu o último trem para casa e passou a noite na escola.

Os incidentes relatados por professores frequentemente incluem pais gritando insultos nas escolas, ligando para professores tarde da noite em números privados, protestando por horas contra avaliações ou deixando a resolução de conflitos inteiramente a cargo da escola, enquanto expressam apenas suas próprias queixas.

Fazer exigências insistentes repetidamente é a marca registrada dos chamados pais monstruosos. Os motivos variam de atividades extracurriculares à orientação profissional. Muitos professores já conciliam aulas em tempo integral e a supervisão de atividades extracurriculares, e ainda dedicam horas extras para lidar com as reclamações dos pais.

O impacto vai além do esgotamento profissional e também afeta o recrutamento. De acordo com dados do Conselho de Educação de Tóquio, a taxa de aprovação nos concursos para professores da rede pública caiu de 5:1 em 2016 para menos de 2:1 nos últimos anos, em parte porque a profissão agora envolve lidar com pais difíceis.

As demissões aumentam a tensão. Os professores, exaustos por repetidos confrontos, desenvolvem problemas de saúde ou pedem demissão, obrigando os funcionários restantes a assumirem mais trabalho.

Para lidar com essa situação, as diretrizes preliminares de Tóquio visam classificar explicitamente o comportamento parental extremo como assédio ao consumidor.

Em abril passado, Tóquio promulgou uma lei para prevenir o assédio a clientes, declarando que ninguém deve se envolver em tal conduta em qualquer ambiente, incluindo escolas.

As diretrizes preliminares listam exemplos de assédio que podem incluir exigir desculpas excessivas, fazer pedidos descabidos em relação a transferências ou realocações de professores, filmar nas dependências da escola sem permissão e fazer ligações prolongadas ou telefonemas que interrompam o trabalho.

Quando esse comportamento se repete, recomenda-se que as escolas limitem as reuniões a 30 minutos após o término das aulas (podendo ser prorrogadas para 60 minutos), envolvam vários membros da equipe e documentem cuidadosamente os fatos.

As reações entre os educadores são diversas. Um professor na casa dos trinta anos, em Tóquio, acolheu bem as regras. "Antes, confiávamos na nossa intuição. Ter regras claras é uma coisa boa."

Um professor da região de Kyushu mostrou-se mais cauteloso. "A aplicação rígida das regras poderia agravar ainda mais os conflitos."

Um alto funcionário do Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia declarou: "Os casos de educadores que sofrem de problemas de saúde mental devido a reclamações excessivas estão aumentando. Precisamos construir um 'muro' para proteger os professores."

Existe um precedente. Em maio, o conselho escolar de Hokkaido introduziu diretrizes semelhantes, mas apenas uma consulta foi registrada até o momento. Um funcionário atribuiu isso à dificuldade em determinar o que constitui assédio.

Um funcionário do conselho escolar da região de Chubu alertou que manter o relacionamento com os pais continua sendo essencial.

"Um ambiente de ensino obrigatório é diferente de um restaurante onde você pode simplesmente negar a entrada a alguém", disse o funcionário.

A psicóloga social Hiromi Ikeuchi, da Universidade de Kansai, afirmou que a clareza digital das diretrizes de Tóquio é significativa e poderia ser estendida a outros municípios.

Mas ela alertou: "Há casos em que o assédio por parte de clientes se desenvolve devido às palavras ou ações de membros do corpo docente."