DOCUMENTOS DIPLOMÁTICOS: O automóvel também se tornou um tema importante nas relações entre o Japão e os Estados Unidos há 30 anos.
Um dos principais elementos das tarifas anunciadas no início deste ano pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em relação ao Japão, dizia respeito a automóveis e suas peças de reposição.
Este setor tem sido, há muito tempo, objeto de controvérsia comercial entre os dois países.
Documentos desclassificados em 24 de dezembro pelo Ministério das Relações Exteriores descrevem as acaloradas negociações que ocorreram há 30 anos.
Em 27 de junho de 1995, Ryutaro Hashimoto, Ministro do Comércio, reuniu-se em Genebra com Mickey Kantor, representante comercial americano.
A sessão inicial resultou na icônica foto de Hashimoto apontando uma espada de bambu "shinai" que Kantor lhe dera para a própria garganta, indicando o que ele acreditava ser o clima das discussões.
As negociações no setor automotivo foram resultado da ênfase dada à política econômica pelo presidente americano Bill Clinton, que assumiu o cargo em 1993.
Washington exigiu que o Japão abrisse seu mercado para reduzir seu enorme superávit comercial com os Estados Unidos.
Mas o Japão se recusou a aceitar metas numéricas específicas.
Documentos do Ministério das Relações Exteriores mostram que, quando Kantor se reuniu com Hashimoto, o representante comercial dos EUA solicitou às montadoras japonesas planos de produção e fornecimento de peças nos Estados Unidos antes da divulgação de uma declaração conjunta sobre as negociações.
Os documentos do ministério incluem um relatório de Shinichi Nishimiya, que chefiava a Segunda Divisão Norte-Americana do Ministério das Relações Exteriores. Nishimiya era membro da delegação japonesa liderada por Hashimoto.
Nishimiya viria a se tornar vice-ministro das Relações Exteriores e, em 2012, foi nomeado embaixador na China, mas morreu de um ataque cardíaco antes de assumir o cargo.
Kantor queria obter os números das montadoras japonesas porque desejava incluí-los na declaração conjunta para mostrar os resultados das negociações.
Sabendo que o Japão há muito se opunha ao estabelecimento de metas específicas, o lado americano chegou a fazer um acordo e declarou que os números contidos na declaração conjunta poderiam ser descritos como estimativas feitas por Kantor.
Autoridades japonesas do Ministério das Relações Exteriores e do então Ministério do Comércio Internacional e Indústria discutiram com Hashimoto os próximos passos.
O documento do Ministério das Relações Exteriores inclui trocas de mensagens entre altos funcionários do ministério.
Um funcionário do MITI contestou a divulgação dos números a Kantor, argumentando que, se os Estados Unidos considerassem os números insuficientes, exigiriam números ainda maiores.
Mas Koichi Haraguchi, diretor-geral do Departamento de Assuntos Econômicos do Ministério das Relações Exteriores, afirmou que as negociações não prosseguiriam até que os números fossem apresentados.
Ele acrescentou que a redação da declaração conjunta poderia ser manipulada para ocultar a fonte dos dados.
Hashimoto afirmou que não divulgar os números era impensável. Ele lembrou a todos da posição fundamental do Japão: fazer tudo o que for possível e, caso não se chegue a um acordo, desafiar os Estados Unidos a impor sanções econômicas.
Na manhã de 28 de junho de 1995, Hashimoto disse a Kantor que o que ele estava prestes a dizer era estritamente confidencial. Em seguida, explicou os planos das montadoras japonesas.
Durante as negociações em nível operacional, o Japão concordou em incluir na declaração conjunta uma nota informando que os números eram estimativas da Kantor. No entanto, as autoridades japonesas também solicitaram a inclusão de uma redação afirmando que "essa estimativa excede o limite pelo qual o governo (japonês) pode ser responsabilizado".
Embora as autoridades americanas inicialmente hesitassem quanto a essa inclusão, quando Kantor compareceu à reunião, sugeriu que seu nome fosse substituído pelo do escritório do Representante Comercial dos EUA.
Isso pareceu resolver o problema.
Mas quando Hashimoto e Kantor realizaram uma coletiva de imprensa conjunta em 28 de junho, o lado americano não havia incluído suas estimativas, então o documento tinha espaços em branco onde os números deveriam ter aparecido.
As próprias montadoras japonesas começaram a anunciar seus planos para os Estados Unidos, e as autoridades americanas acrescentaram esses números à declaração conjunta divulgada em 29 de junho.
Em seu relatório, Nishimiya explica que o ministério se recusou a submeter-se a metas numéricas porque sentia uma sensação de crise.
Ele temia que a opinião pública japonesa em relação aos Estados Unidos se tornasse negativa se as negociações sempre resultassem na superpotência conseguindo o que queria após impor suas exigências.
Ele também acreditava que o governo Clinton queria mostrar resultados positivos das negociações a todo custo, mesmo que isso significasse que os números fossem estimativas próprias.
Até se recusar a aceitar metas específicas em 1995, Tóquio frequentemente fazia concessões em questões comerciais com os Estados Unidos nos setores siderúrgico e automotivo, limitando voluntariamente suas exportações ou aceitando metas de participação de mercado para semicondutores estrangeiros vendidos no Japão.
A firme posição adotada em 1995 deveu-se em parte à criação da Organização Mundial do Comércio naquele ano e ao crescente sentimento internacional favorável ao livre comércio.
Mas, como o governo Trump não está interessado no livre comércio, o Japão foi forçado este ano a aceitar metas numéricas, como investir US$ 550 bilhões (cerca de 85 trilhões de ienes) nos Estados Unidos e comprar US$ 8 bilhões adicionais em produtos agrícolas americanos.
(Este artigo foi escrito pelos editores principais Hirobumi Ohinata e Naotaka Fujita.)
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Este artigo faz parte de uma série baseada em documentos diplomáticos desclassificados pelo Ministério das Relações Exteriores do Japão em dezembro de 2025.

