REPORTAGEM ESPECIAL: O misterioso Uketsu reflete sobre a lista de finalistas da Dagger e sua estreia britânica.
LONDRES — Se você já viu o escritor japonês de terror Uketsu, que usa uma máscara branca e um macacão preto, é bem provável que nunca o esqueça.
Embora seu verdadeiro rosto e identidade permaneçam um mistério, ele atraiu atenção depois que a versão em inglês de seu livro "Hen na E" ("Imagens Estranhas") foi pré-selecionada para o prêmio Crime Fiction in Translation Dagger de 2026, mas por pouco não ganhou.
Considerado um dos maiores prêmios no campo da literatura policial, ao lado do Prêmio Edgar nos Estados Unidos, o romance de Uketsu, da Crime Writers' Association of Britain, foi selecionado como um dos seis finalistas. A obra gira em torno dos segredos ocultos por trás de nove desenhos perturbadores.
Mais de 2,7 milhões de exemplares de "Strange Pictures" foram publicados no Japão e no exterior, e edições traduzidas estão planejadas para aproximadamente 40 países e regiões.
Em entrevista à Kyodo News em Londres, em julho, durante a cerimônia de entrega dos prêmios CWA Daggers, Uketsu falou sobre sua paixão pelo trabalho criativo e suas memórias de infância na Grã-Bretanha.
Ele disse estar "verdadeiramente honrado" por ter se tornado um autor de sucesso mundial.
Desde sua estreia com "Strange Houses", a série "Strange" tornou-se sinônimo de Uketsu. Ele também é YouTuber, cantor e criador de curtas-metragens surreais — e muitas vezes perturbadores. Quando questionado sobre por que seus romances se tornaram best-sellers internacionais e como ele atribui seu sucesso, Uketsu enfatizou a influência da cultura mangá japonesa.
"Meu trabalho incorpora ilustrações e diagramas ao longo do texto, influenciados pela cultura japonesa dos mangás. Como os mangás são apreciados no mundo todo, o fato de os leitores sentirem que estão lendo um mangá ao lerem meu trabalho pode ser um dos motivos pelos quais ele é lido globalmente."
Uketsu também atribuiu o sucesso da edição em inglês ao tradutor americano Jim Rion. "Acredito que a excelente qualidade da tradução de Jim Rion também contribuiu para o sucesso da edição em inglês e sua seleção como finalista do Prêmio Dagger", afirmou.
Uketsu começou a escrever artigos online enquanto trabalhava meio período em um supermercado. Ele aprimorou suas técnicas de escrita para a web, focando em leitores online que podem percorrer as páginas rapidamente, sem precisar absorver cada palavra.
“Nunca imaginei que seria capaz de criar obras que ressoassem com tantas pessoas. Se meu eu do passado pudesse me ver aqui em Londres, na cerimônia do Dagger Awards, tenho certeza de que ficaria impressionado. Mesmo tendo tido a oportunidade de me apresentar no cenário internacional, quero me lembrar de que ainda sou apenas mais uma pessoa que se conecta silenciosamente em algum canto da internet, e tenho orgulho disso.”
Para esconder o rosto, Uketsu primeiro fez uma máscara colando argila em papel cartão. Ele também decidiu usar um macacão preto. "No começo, não fazia muito sentido. Mas conforme continuei postando vídeos no YouTube com esse personagem, senti que ele gradualmente começou a ganhar vida própria."
Uketsu é originário da província de Kanagawa, perto de Tóquio. A partir dos dois anos de idade, morou por cerca de quatro anos em um subúrbio de Londres devido ao trabalho de seus pais. Nos fins de semana, ele e sua família costumavam sair para explorar o centro de Londres.
“Tenho lembranças muito vívidas da textura das ruas de paralelepípedos e das pequenas escadas e portas que davam acesso aos semi-porões das casas antigas. Desta vez, caminhei por Londres e isso me trouxe de volta essas lembranças e me deixou nostálgico. Ver os códigos QR nos ônibus realmente me fez sentir a passagem do tempo. Andei pela cidade vestido com roupas completamente comuns.”
Ao ser questionado sobre sua abordagem na escrita de "Strange Pictures", Uketsu disse que estava determinado a fazer um romance policial logicamente coerente do início ao fim, após sentir que seu primeiro livro, "Strange Houses", tinha muitas falhas que lhe causaram certo arrependimento.
"Foi uma espécie de chance de redenção, eu diria", disse Uketsu.
Embora desapontado por não ter ganhado o Prêmio Dagger, Uketsu considera a experiência inestimável como romancista. Ele também ficou satisfeito por seguir os passos do ex-finalista do Dagger, Hideo Yokoyama, que foi indicado por seu romance policial de sucesso "64" ("Rokuyon") em 2016.
“Só o fato de poder comparecer à cerimônia de premiação já foi uma experiência valiosa e significativa para a minha carreira de escritor. Havia muitos escritores estrangeiros lá, muitos dos quais eu não conhecia”, disse ele. “Acho que já li bastante literatura japonesa, mas não li o suficiente de literatura estrangeira, então gostaria de ler as obras dos vencedores.”
Quanto aos temas de seus futuros projetos de escrita, Uketsu diz estar aberto a muitas ideias.
"Há tantos temas que eu gostaria de explorar. Tenho grandes sonhos, mas quero ter certeza de não me distrair com um mundo tão vasto. Para entreter todos os leitores da minha obra, quero manter os pés no chão enquanto sigo em frente."
"Tenho todo tipo de sentimentos pessoais em relação aos meus livros, mas se eu falar muito sobre eles, acho que posso pressionar as pessoas que estão prestes a lê-los. Então, prefiro deixar esses sentimentos de lado e simplesmente transmitir que os livros são, antes de tudo, algo para ser apreciado."

