Empreendendo no Japão, a história da querida Estela Hioki

Empreendendo no Japão, a história da querida Estela Hioki

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Mãe de 2 filhos, casada, professora de culinária e confeitaria, a nossa entrevistada de hoje se chama Estela Sayuri Hioki.

Antes de se envolver com a confeitaria, da qual foi o seu forte desde criança, Estela, mais conhecida como Estelinha, tirou sua carteira de comissária de bordo, fez alguns cursos de inglês e espanhol, mas como pretendia falar fluentemente o idioma inglês afim de seguir carreira como aeromoça, trancou a faculdade de turismo e veio ao Japão com 28 anos para guardar dinheiro e poder morar por algum tempo na Nova Zelândia e se especializar na língua inglesa.

Para conseguir tomar essa decisão de abandonar tudo no Brasil, inclusive deixar seu pai sozinho foi difícil. Mas como sua mãe e seus irmãos já moravam no Japão,  a adaptação foi bem mais fácil do que imaginava e logo se apaixonou pelo país.

Como muitos estrangeiros que chegam ao Japão com um projeto, mas acabam se surpreendo com o destino, com Estelinha não foi diferente. A ideia de seguir a carreira como comissária de bordo foi ficando para trás, quando conheceu seu esposo e teve seu primeiro filho, Henry. Mesmo colocando um sonho de lado, Estelinha não deixou de atuar na área em que estudava no Brasil e trabalhou por um período em uma agência de viagem.

 

Porém queria fazer algo a mais do que ser apenas uma funcionária. Já que sempre gostou da confeitaria, quando se mudou para Hamamatsu Shizuoka, deu início aos cursos de especializações de culinária e confeitaria japonesa e brasileira para aprimorar seus conhecimentos e aprender novas técnicas.

Seu primeiro contato com o forno e fogão, foi aos 10 anos, quando ganhou uma bolsa de estudo por seis meses, onde aprendeu a fazer desde o simples arroz, a um bolo sofisticado.

“Desde que comecei o curso, não parei mais. Gostava de pegar meu caderno, testar receitas novas e aprimorar as que  aprendi na escola. Além de estudar bastante, assistia programas de culinária, cortava recortes das embalagens de açúcar, farinha e leite condensado, mandava cartas para receber receitas gratuitas, gravava os programas e assistia diversas vezes para poder decorar tudo. Eu era viciada em tudo que fosse relacionado a culinária.” Relembra Estela ao falar do passado.

Quando chegou ao Japão, mesmo com a ideia de só obter uma verba pra poder morar na Nova Zelândia, como sempre gostou da confeitaria, Estelinha trouxe 100 forminhas de pão de mel em sua mala de mão, pois sabia que um dia provavelmente usaria as forminhas para ganhar dinheiro extra e foi isso que ela fez. Com a chegada do primeiro filho, Estelinha passou a vender doces para ajudar na renda da família.

Hoje ao 45 anos, com muita experiência na bagagem, Estelinha se lembra que naquela época o acesso à internet não era tão fácil. Para conseguir informarções de cursos, era necessário pesquisar em revistas japonesas e ligar nas escolas. Fez curso de pães por quatro meses e depois entrou em uma escola técnica de culinária. Começou como aluna, mas com o tempo foi chamada também para fazer as traduções das aulas, já que muitas brasileiras estavam se matriculando na escola. Ficou como tradutora por cerca de 6 anos, inclusive nas aulas de pães.

“Lá sim aprendi o que é organização, técnicas de confeitaria francesa e japonesa e, o mais importante, os doces que eram um sonho para mim. Não foi fácil, confesso. Teve finais de semana que fiquei até as 22:00h da noite limpando chão e lavando louça, com meu filhinho junto me esperando com sono ali quietinho. Era difícil, mas tinha que aproveitar essa oportunidade.” Conta Estela.

Estela se dedicou muito nesse curso e emprego e só parou quando estava no nono mês de gestação do seu segundo filho. Mas assim que o pequeno Erik nasceu, voltou aos estudos e tirou sua licença japonesa para lecionar cursos de pães e doces japonês e francês. Estelinha se emociona ao lembrar que estudou muito, deixou alguns sonhos de lado, mas não se arrepende de nada, pois mesmo querendo seguir carreira como comissária de bordo, sempre gostou da culinária e confeitaria. E hoje se sente realizada em ensinar mulheres, inclusive crianças, a fazerem bolos, doces e pães. Já são 3 anos atuando como professora, dando aulas teóricas e práticas e, o mais importante, proporcionar às suas alunas, uma profissão que pode ser rentável para elas e suas famílias.

“Trabalhar com culinária é sacrificante e cansativo. São horas em pé, correndo para comprar os ingredientes, madrugadas sem dormir e quando não da certo alguma receita é necessário fazer tudo de novo. Só quem trabalha com isso sabe o que estou falando. Minha família foi bem sacrificada com a minha decisão, pois foram muitos finais de semanas sem sair, quando saíam eram sem a mãe junto, pois estava sempre na cozinha de noite, de madrugada, nos finais de semana, tinha também que entregar encomendas, ou estava ocupada dando aulas ou fazendo cursos. Eu sei o quanto foi sacrificante para todos nós. Mas sempre tive o apoio de todos eles, principalmente do meu filho mais velho que sempre elogiou tudo que fazia e continua assim até hoje. Sempre esteve do meu lado me incentivando, mesmo quando estava exausta.” Conta ela ao se lembrar de como foi difícil no início, mas hoje sabe que fez a escolha certa.

 Estelinha se sente muito realizada com seu empreendimento, mas pretende ir adiante, mesmo ainda trabalhando fora. Quer agora fazer eventos voltados às empreendedoras que, assim como ela, trabalham com vendas de doces e salgados.

Além disso, pretende ensinar às japonesas a deliciosa confeitaria brasileira.

Para ela, interromper um sonho não é sinal de fracasso, mas sim abrir horizontes para novas oportunidades que a vida oferece.