ENTREVISTA: Partidos populistas japoneses alimentam temores infundados (acadêmico europeu)

ENTREVISTA: Partidos populistas japoneses alimentam temores infundados (acadêmico europeu)

TÓQUIO – Agindo como “empreendedores políticos”, os partidos populistas de direita em ascensão no Japão nos últimos anos alimentaram temores sobre questões que não refletem a realidade do país, de acordo com a observação de um especialista europeu em política comparada.

Daniele Caramani, professor da Universidade de Zurique, acredita ser incerto se os ganhos de popularidade e de terreno político obtidos por esses partidos serão sustentáveis. No entanto, acrescentou que suas visões podem atrair atenção no contexto da mudança geracional no Japão, com um declínio na sensibilidade em relação ao militarismo do passado do país.

Embora a retórica centrada na "identidade nacional" e na oposição à imigração reflita tendências na Europa e nos Estados Unidos, a situação real no Japão difere significativamente daquela nessas regiões, afirmou Caramani, um acadêmico italiano, em uma entrevista recente à agência de notícias Kyodo, em Tóquio.

Suas declarações surgem em um momento em que o partido populista Sanseito, conhecido por seu slogan "Japoneses Primeiro", expandiu sua presença nas eleições para a Câmara dos Representantes em 8 de fevereiro, conquistando 15 cadeiras, ante as duas anteriores, e dando continuidade à ascensão observada nas eleições para a Câmara dos Conselheiros em julho de 2025.

Outro pequeno grupo de oposição, o Partido Conservador do Japão, que criticou a aceitação de trabalhadores estrangeiros com vistos pelo Japão, considerando-a uma forma de abrir as portas à imigração, também chamou a atenção ao conquistar duas cadeiras na eleição para a câmara alta no ano passado, embora tenha perdido sua única cadeira na câmara baixa nas eleições deste mês.

Mas Caramani argumentou que, mesmo que o idioma seja familiar, "não há imigração real" para o Japão. "Isso mostra que esses partidos são verdadeiros empreendedores políticos. Eles criam uma 'realidade', mas às vezes ela não existe."

Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 2024, os residentes estrangeiros representavam cerca de 3% da população japonesa, um nível muito abaixo do da maioria dos outros países desenvolvidos, onde essa participação chega a 10% ou mais.

No entanto, relatos de estrangeiros que abusam dos serviços públicos ou se envolvem em comportamentos problemáticos têm atraído a atenção no Japão, com partidos, incluindo o Sanseito, buscando capitalizar sobre essas preocupações, apresentando-se como defensores de uma posição firme.

Caramani afirmou ser difícil prever se o Sanseito conseguirá manter seu ímpeto, mas alertou que acontecimentos internacionais, como a pressão do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a Groenlândia, podem levar as pessoas a começarem a ver o nacionalismo excludente como "perigoso".

"Se você disser 'seu país em primeiro lugar', também poderá se encontrar muito isolado", disse Caramani, questionando se tais ideias podem manter o apoio público a longo prazo em países pequenos que se encontram em uma posição vulnerável em um "mundo predatório" onde "a força prevalece".

Caramani também afirmou que o nacionalismo, que há muito é considerado "tabu" no Japão devido ao seu histórico de guerras, pode ressurgir devido a uma mudança geracional – um desenvolvimento que ele acredita ter paralelos na Europa.

Nas eleições para a câmara baixa, o Partido Liberal Democrático, liderado pelo primeiro-ministro Sanae Takaichi, conhecido por sua postura política conservadora e visões linha-dura em relação à segurança, obteve uma vitória histórica esmagadora, conquistando uma maioria de mais de dois terços.

Caramani recebeu o prestigiado Prêmio Stein Rokkan de Pesquisa Comparativa em Ciências Sociais em 2004.