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O Japão já recebeu cerca de 1,5 milhão de trabalhadores estrangeiros e o governo está se esforçando para atrair ainda mais. Eles estão elaborando medidas que criarão uma sociedade inclusiva, na qual trabalhadores japoneses e estrangeiros possam viver em um ambiente seguro e confortável. Mas seus esforços estão enfrentando um novo problema: um número crescente de trabalhadores estrangeiros está “abandonando” seus locais de trabalho.
A desistência de trabalhadores estrangeiros tem sido um desafio para o Japão. Mas o problema se tornou mais agravante nos últimos anos. A Agência de Serviços de Imigração, diz que 9.052 estagiários estrangeiros desistiram ou fugiram dos seus trabalhos em 2018, quase o dobro do número de 2014.
Todos chegaram ao país como parte do Programa de Treinamento Técnico Interno, patrocinado pelo Estado. A idéia por trás da política, era trazer mão de obra dos países em desenvolvimento e enviar os trabalhadores para casa três anos depois, equipados com valiosas habilidades técnicas.
Em junho do ano passado, mais de 367.000 trabalhadores estavam no Japão como parte do programa. Eles atuam em uma variedade de indústrias, incluindo construção, manufatura e produção de alimentos.
Para os estagiários, o programa não é apenas uma chance de ganhar mais, mas também é a busca de esperança para um futuro cheio de oportunidades, graças às habilidades que adquirem durante o tempo que passam no país.

Outra realidade

Mas o número de estagiários desistentes conta uma história diferente. A NHK conseguiu rastrear e conversar com alguns deles. Eles dizem que a realidade em seus locais de trabalho era muito diferente do que eles esperavam.
Três jovens de um país do sudeste asiático, que pediram para não serem identificados, foram enviados para uma fazenda na província de Nagano em 2018 como parte do programa. Eles se inscreveram depois de saber que poderiam economizar muito dinheiro trabalhando no Japão.
Mas levou apenas alguns dias na fazenda para que eles percebessem que entrariam em colapso por exaustão antes de alcançarem o sonho. Eles disseram à NHK que foram forçados a trabalhar das 2 da manhã às 5 da tarde, durante a temporada, e o pagamento de horas extras estava bem abaixo do que haviam combinado.
Após seis meses nessas condições, os três não aguentaram mais. Eles decidiram fugir. Apesar de falar apenas japonês em nível iniciante, eles contaram com a ajuda de uma rede de trabalhadores estrangeiros e viajaram da fazenda de Nagano para Kyoto, onde encontraram novos trabalhos.
Mas as coisas só pioraram. Eles foram contratados por uma pequena empresa de construção e foram forçados a trabalhar das 6h às 11h do dia seguinte. Eles disseram que quase não receberam pagamento pelo trabalho.

Mais de 80% dos trabalhadores estrangeiros que em algum momento fugiram de seus locais de trabalho no Japão são do Vietnã ou da China.

Exploração desenfreada

Histórias como essas fizeram o governo japonês sofrer fortes críticas. Em março de 2018, o Ministério da Justiça publicou uma pesquisa com mais de 4.000 organizações envolvidas no programa de trainee. Constatou-se que mais de 750 pessoas haviam “fugido” de seus locais de trabalho depois de sofrer uma série de abusos, incluindo pagamento insuficiente e excesso de trabalho.
Em novembro, a Agência de Imigração informou que estariam adotando medidas mais rígidas sobre empresas e organizações de supervisão. Além disso, as empresas das quais muitos trainees haviam fugido seriam suspensas do programa e banidas por completo se fossem encontradas práticas ilegais. A agência também disse que estava considerando tornar público os nomes dessas empresas.
De acordo com Yoshihisa Saito, professor associado da Escola de Pós-Graduação em Estudos de Cooperação Internacional da Universidade de Kobe, essas medidas não resolverão o problema. Saito acompanha as condições de trabalho e de vida dos trainees vietnamitas há muitos anos.
Saito descarta essas medidas como um curativo, mas uma solução apressada aplicada após o desaparecimento em massa. Ele diz que a necessidade mais premente é garantir que os trainees tenham um ambiente de trabalho saudável e confortável para começar. Saito diz que o governo pode fazer isso com verificações mais rigorosas e padrões mais rígidos de supervisão, além de uma revisão mais completa do sistema geral de trainees.
Ele também diz que precisa haver um sistema de apoio para os trabalhadores que já fugiram, como abrigos funcionando corretamente.
Saito diz que uma das maiores falhas do sistema atual é que estagiários estrangeiros só podem trabalhar na categoria de negócios para a qual são contratados inicialmente. Isso dificulta a busca de trabalho alternativo. Obriga-os a enfrentar a escolha entre ficar e sofrer, ou fugir e arriscar-se com trabalho ilegal.
O Japão revisou recentemente sua lei de imigração com o objetivo de aceitar ainda mais trabalhadores estrangeiros, mas essa medida parece ter sido aprovada sem a consideração completa dos direitos e condições de vida dos trabalhadores.
Críticas internacionais ao histórico de direitos humanos do Japão em relação a trabalhadores estrangeiros estão crescendo. Mariko Yamaoka, diretora do Not for Sale, grupo de defesa dos direitos humanos, diz que o Japão pode ser rotulado como um estado escravista moderno.
Para o Japão não ter essa reputação negativa, terá que melhorar as condições para os trainees estrangeiros  rapidamente, e enfrentar as questões crescente ao número de desistências de.

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