A biblioteca ucraniana em Tóquio oferece aos refugiados um sentimento de pertencimento.

A biblioteca ucraniana em Tóquio oferece aos refugiados um sentimento de pertencimento.

TÓQUIO — Uma pequena biblioteca de livros em língua ucraniana, localizada no distrito de Shibuya, em Tóquio, serve como um ponto de apoio emocional para pessoas que fugiram da Ucrânia para o Japão desde a invasão em larga escala do país pela Rússia em 2022.

A biblioteca foi inaugurada naquele ano por Daria Murakami, uma ucraniana casada com um japonês, que estava firmemente comprometida com a proteção da cultura ucraniana.

O que começou como um esforço modesto cresceu de forma constante. Agora, abriga quase 1.000 livros ilustrados, romances e mangás que preenchem as prateleiras ao longo das paredes de uma sala do prédio, criando um espaço tranquilo onde os visitantes podem folhear e se reconectar com o idioma e as histórias de seu país de origem.

Daria chegou ao Japão em 2014, quando a Rússia fomentava conflitos no leste da Ucrânia. Determinada a construir uma vida em seu novo país, ela estudou japonês e acabou se casando. Enquanto cria sua filha de 7 anos, ela ensina inglês para crianças em uma pré-escola.

Há quase 2.000 ucranianos no Japão, muitos dos quais são mães de crianças pequenas. Para muitos deles, o cotidiano é repleto de incertezas e preocupações.

Criar filhos em ambientes desconhecidos enquanto se verifica constantemente as notícias da guerra no país de origem é extremamente estressante. A iniciativa de Daria visava proporcionar um lugar onde os ucranianos pudessem relaxar e sentir-se em casa.

Após a invasão russa em larga escala da Ucrânia em 2022, a Organização Japonesa de Agências de Saúde Mental e Educação, um grupo de conselheiros que presta assistência psicológica principalmente a pessoas que vivem em áreas afetadas por desastres no Japão, decidiu estender seu apoio aos refugiados ucranianos.

Mariko Ukiyo, líder da organização, começou a procurar alguém que pudesse servir de ponte para o novo projeto. "Temos experiência em cuidados psiquiátricos, mas não sabíamos nada sobre a Ucrânia", disse ela.

Ukiyo encontrou rapidamente essa pessoa em Daria devido ao seu conhecimento das línguas e culturas ucraniana e japonesa, bem como à sua compreensão pessoal do que os ucranianos deslocados estavam passando.

Ukiyo aceitou imediatamente a proposta de Daria de colocar livros no escritório da organização ucraniana de ajuda a refugiados porque, como ela lembra, "ler alivia a solidão".

Daria trouxe cerca de 50 livros e os exibiu em uma pequena prateleira em um canto do escritório. Os visitantes logo começaram a pegá-los.

Os rostos das mães suavizaram-se enquanto liam os livros para os filhos, compartilhando histórias que lhes traziam à memória o lar. Para aqueles que solicitam livros de locais remotos como Okinawa, Daria os envia por conta própria.

Daria também recebeu uma resposta imediata quando pediu ajuda a seus amigos e outras pessoas na Ucrânia. Um funcionário de uma livraria solicitou doações de livros aos clientes, enquanto autores prontamente enviaram seus trabalhos.

Uma editora continua a enviar livros recém-publicados apesar das difíceis condições econômicas em tempos de guerra, incluindo o fato de só poder usar eletricidade por três horas por dia.

Algumas pessoas agora visitam a biblioteca com frequência, dizendo que o espaço as faz sentir como se tivessem retornado brevemente para casa. Uma delas é Olha Kobylianska, de 26 anos, que mora no Japão há quase quatro anos.

Ao encontrar um livro que havia lido na Ucrânia e que era um de seus favoritos, ela falou com a voz embargada: "Ele me faz lembrar dos momentos felizes que passei com minha família e meus amigos".

Assistir a vídeos de soldados russos queimando livros é de partir o coração, disse ela. "Os livros aqui não estão danificados. É por isso que quero coletar o máximo de livros possível."