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A mãe do suposto assassino de Abe pede desculpas pelas ações do filho.

NARA — Os advogados de defesa do homem acusado de assassinar o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe disseram que as fervorosas atividades religiosas de sua mãe e as doações que ela fazia à Igreja da Unificação levaram o filho a uma situação desesperadora.

Convocada como testemunha pela equipe de defesa em 13 de novembro, a mãe foi cercada por divisórias no Tribunal Distrital de Nara, de forma que não pudesse ser vista da galeria.

Tetsuya Yamagami, de 45 anos, disse que atirou e matou Abe em julho de 2022 por causa de seus laços com a igreja, agora oficialmente chamada de Federação das Famílias para a Paz Mundial e Unificação. O suspeito afirmou que as enormes doações de sua mãe arruinaram a família e seu futuro.

"Você tem algo a dizer primeiro, não é?", perguntou a equipe de defesa.

A mãe disse devagar e com um certo nervosismo: "Eu deveria ter me desculpado imediatamente, mas não consegui. Hoje, quero oferecer esse pedido de desculpas. Peço sinceras desculpas pelo que meu filho fez."

Ela prosseguiu: "Ao ex-primeiro-ministro Abe, à Sra. Akie e aos familiares enlutados, apresento minhas mais sinceras desculpas."

Questionada pela defesa sobre sua fé atual, a mãe respondeu: "Ainda acredito na Federação das Famílias pela Paz e Unificação Mundial."

Yamagami lançou um breve olhar para a divisória, mas manteve o rosto inclinado para baixo durante todo o seu depoimento.

A equipe de defesa pretende demonstrar que o crime de Yamagami decorreu de "abuso religioso" dentro de sua família e não constituiu um ato de terrorismo político.

A defesa perguntou à mãe o que havia acontecido quando Yamagami tinha 4 anos de idade.

"Meu marido cometeu suicídio", disse ela. "Por causa de problemas relacionados ao trabalho, ele se tornou alcoólatra e deprimido, e se recuperava em casa. Vê-lo beber em casa me deixava muito chateada, e eu tratava as crianças com muita dureza."

Ela também afirmou que sua irritação havia sido "dissipada" depois que começou a frequentar as reuniões matinais da igreja.

“Eu conseguia ser gentil com meu marido e filhos. No entanto, quando ficou claro que eu estava deixando as crianças para trás para participar de encontros e fazer ofertas em dinheiro, meu marido começou a se opor. Outros membros da família também se opuseram, e eu me senti frustrada”, disse ela.

Ela afirmou ter doado 500.000 ienes (US$ 3.200) durante os comícios da manhã.

Quando questionada sobre o que achava do suicídio do marido, ela respondeu: "Fiquei com raiva, me perguntei por que ele faria uma coisa dessas. Também me arrependi de que, se eu tivesse sido mais gentil, isso não teria acontecido."

Antes de seu depoimento, a defesa leu em voz alta e-mails trocados entre Yamagami, sua mãe e sua irmã, e mostrou que a mãe havia viajado para a Coreia do Sul, onde fica a sede da igreja, mais de 30 vezes.

Yamagami e seu irmão mais velho se opuseram às suas atividades religiosas e expressaram queixas econômicas contra ele, afirmou a defesa.

Trocas de e-mails entre 18 e 20 de abril de 2012 revelaram queixas dirigidas à mãe a respeito da vida familiar e da condição do irmão mais velho.

"Continuar fazendo coisas estúpidas é mais do que inaceitável", dizia um dos e-mails. "O que você planeja fazer na sua velhice?"

Em um e-mail, Yamagami ataca sua mãe: "Você pretende voltar para a Coreia do Sul? E quanto ao dinheiro?"

A diatribe continua: "Você não investiu em seus filhos, mas investiu em religião e arruinou as finanças da família – o que você é?"