A suspensão dos impostos sobre o consumo no Japão pode não levar a uma diminuição dos preços dos alimentos.
TÓQUIO – A primeira-ministra Sanae Takaichi está considerando suspender o imposto sobre o consumo de produtos alimentícios para aliviar o sofrimento causado pela inflação persistente, mas alguns especialistas, citando precedentes estrangeiros, questionam se isso reduzirá substancialmente os preços ao consumidor.
Algumas empresas que não repassaram o aumento dos custos de importação devido à desvalorização do iene podem ver a suspensão de impostos como uma forma de fazê-lo.
Após a vitória esmagadora nas eleições gerais de 8 de fevereiro, a coligação governante liderada por Takaichi pretende abolir o atual imposto de 8% sobre produtos alimentares por um período de dois anos.
Na sexta-feira, iniciou-se um debate entre os partidos para definir os detalhes, com Takaichi pretendendo apresentar um projeto de lei já neste outono para implementar a suspensão do imposto.
O Japão já havia aumentado a taxa do imposto sobre o consumo de 8% para 10% em 2019, mas manteve a taxa sobre produtos alimentícios em 8%.
Segundo uma pesquisa governamental realizada em 2019, 31 dos 40 itens, incluindo aqueles sujeitos à alíquota reduzida de 8%, tiveram seus preços aumentados.
Enquanto as famílias lutam contra a inflação, as pequenas e médias empresas que não repassaram o aumento dos custos estão receosas quanto às expectativas dos consumidores por produtos mais baratos.
A Conferência Nacional da Associação de Pequenos Empresários, que reúne cerca de 47.000 proprietários de empresas em todo o país, afirmou que seria "irrealista" esperar uma queda de 8% nos preços no varejo quando o imposto for suspenso.
"Haverá casos em que (as empresas) o utilizarão para compensar o aumento dos custos de matérias-primas, custos de logística e custos de mão de obra que absorveram", disse a agência no início deste mês.
Especialistas afirmam que isenções fiscais concedidas no passado a outros países podem servir de lição para o Japão.
Uma redução de 14 pontos percentuais no imposto sobre valor agregado (IVA) para serviços de cabeleireiro na Finlândia teve um impacto limitado entre 2007 e 2011, enquanto a suspensão do imposto de 21% sobre produtos alimentícios na Argentina resultou em uma queda média de preços de 10%.
Em Portugal, porém, a suspensão em 2023 do imposto de 6% sobre determinados produtos alimentares teve impacto direto nos preços a retalho, segundo especialistas.
Makoto Hasegawa, professor associado de finanças da Universidade de Kyoto, afirmou que os preços em Portugal já eram deflacionários na fase de produção e que as empresas estavam sofrendo pressão de grupos de consumidores e da mídia para baixar os preços.
Segundo Hasegawa, ainda não se sabe se o Japão também terá resultados semelhantes caso a suspensão do imposto seja implementada.
Hasegawa afirmou que os benefícios da suspensão para os consumidores seriam reduzidos caso os preços subissem acentuadamente em seguida. "Isso também representará um ônus para as empresas, caso não possam aumentar os preços. Esses riscos precisam ser considerados", disse Hasegawa, acrescentando que o painel multissetorial pretende elaborar um relatório preliminar nos próximos meses.

