O ator de "Kyogen", o ator de dois mundos, deseja desenvolver sua arte em ambos os mundos.
Há um ditado no "kyogen" que diz: "Começa com o macaco e termina com a raposa", uma referência aos papéis que encerram anos de treinamento nessa forma tradicional de teatro cômico.
Hiroaki Ogasawara ainda não é um astro, mas o promissor ator tem um talento especial.
O jovem de 24 anos não só se apresenta no Japão, como também sobe ao palco pelo menos 30 vezes por ano na França, com o objetivo de popularizar essa forma de arte e "reimportar" essa popularidade para seu país de origem.
ATOR E ORGANIZADOR
Certo dia, em novembro de 2025, uma sala do Museu Nacional de Arte Asiática Guimet, em Paris, estava repleta de centenas de espectadores que vieram assistir à apresentação de Ogasawara, atualmente radicado em Kyoto.
Este é o sétimo espetáculo da série "Paris Ennen-no-Kai", que Ogasawara lançou em 2019 para apresentar com seu pai, Tadashi, de 60 anos.
Tradicionalmente apresentado em palcos Noh, o evento parisiense representou-o através de linhas brancas desenhadas no palco do salão para simular a disposição de um "hon-butai" (palco principal) e um corredor "hashigakari" que permitia a entrada e saída dos artistas.
O pano de fundo era uma imagem projetada de um pinheiro no lugar do painel decorativo "kagami-ita".
"Kyogen retrata a vida real como ela é, sem pretensão", explicou Ogasawara à plateia em francês. "Ao rirmos de nossas vidas, acabamos aceitando esse fato e dizendo: 'Bem, é isso que somos, afinal'. Agora, vamos rir juntos."
Nesse sentido, o ator lançou um "Woo-haa-haa", seguido de mais 23 repetições de "haa" para demonstrar como o riso é representado no kyogen.
O público se levantou para experimentar a técnica de Ogasawara e o salão inteiro se encheu rapidamente de aplausos.
Após 20 minutos de aquecimento, ele se juntou ao pai para apresentar juntos duas músicas legendadas.
No entanto, o papel de Ogasawara não se limitava a atuar: ele cuidou de tudo, desde o design do cenário e a legendagem até os folhetos do evento.
"A maioria do público nunca teve contato com o Kyogen antes", disse ele. "Estou decidido, porque a forma como eles verão o Kyogen depende inteiramente de mim."
VIAGENS ENTRE PAÍSES
Essa forma de arte ocupa um lugar importante na vida dele e de sua família desde os primeiros anos de Ogasawara.
Tadashi aprendeu kyogen sob a tutela de Nomura Man I, do falecido Manzo VIII e de Manzo IX da escola Izumi. Ele veio para Osaka para promover a escola Izumi de kyogen na região de Kansai.
Tadashi, Man I e Manzo IX acabariam por treinar Ogasawara.
Ogasawara fez sua estreia nos palcos em "Utsubo-zaru" ("A Aljava do Macaco") aos três anos de idade.
No entanto, em vez de permanecer no Japão, Tadashi, que também era francófilo, incentivou seu filho a morar em Paris com a mãe e a irmã mais velha depois que ele terminasse o ensino fundamental.
A nova vida de Ogasawara no exterior o levou a estudar francês oito horas por dia durante seu primeiro ano do ensino médio. Ele presenteou os amigos que fez entre seus colegas de classe de diversas nacionalidades com origamis.
A vida escolar era intercalada com viagens de volta ao Japão para retomar os treinos e se apresentar no palco durante as férias de Ano Novo e os recessos de verão.
Seu pai era muito rigoroso com relação à sua educação. Ogasawara sentia inveja ao ver nas redes sociais amigos na França passando o verão no Mar Mediterrâneo e esquiando no inverno.
No entanto, ele prosseguiu.
“Talvez eu tivesse gostado de me apresentar no palco”, ele relembra. “Talvez eu estivesse embriagado de mim mesmo, chegando a achar legal não poder comemorar o aniversário da minha namorada por causa do Kyogen.”
Após se formar no ensino médio em Paris, Ogasawara começou a receber convites para participar de projetos de kyogen na França.
Atualmente estudante da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, ele continua dividindo seu tempo entre a capital francesa e Kyoto; suas apresentações de "Paris Ennen-no-Kai" com Tadashi fazem parte de seus compromissos.
O ator espera que o kyogen se torne um gênero teatral amplamente conhecido na França.
"Espero que os jovens japoneses eventualmente se interessem pelo kyogen quando ele for reimportado, de alguma forma", disse ele.
UM PAPEL SIMBÓLICO
Nesta primavera, Ogasawara retoma o ditado dos macacos e das raposas.
Mais especificamente, refere-se aos artistas que interpretaram o macaco em "Utsubo-zaru" como seu primeiro papel no palco e que concluíram seu treinamento interpretando a raposa em "Tsuri-gitsune" (captura de raposas) como uma espécie de projeto de formatura.
A próxima apresentação de Ogasawara no Japão será "Tsuri-gitsune" no Teatro Nacional Noh, no distrito de Sendagaya, em Tóquio, no dia 7 de março, e ele já tem planos para além disso.
Ele planeja apresentar sua peça autobiográfica em 2027 no Théâtre des Bouffes du Nord, em Paris, onde Peter Brook, mestre do teatro contemporâneo, estabeleceu sua companhia.
Seu título japonês é “Douyatte Watashi-wa Kitsune ni Nattanoka” (Como me tornei uma raposa).
Os ingressos para "Tsuri-gitsune" podem ser adquiridos no site da Atelier Oga Japan em (https://www.atelieroga.com/spectacles).

