Advogado inspirado em anime fala no palco para crianças de origens mistas
Enquanto crescia, Leila Kissa Kashiwakura repetia as mesmas respostas para as mesmas perguntas curiosas inúmeras vezes: "Não sou uma corredora rápida", "Não sou boa em inglês", "Nasci e fui criada no Japão".
Kashiwakura, 25, agora é um advogado que cuida de casos que afetam estrangeiros.
Seu pai é do Mali, na África Ocidental, e sua mãe é do Japão.
Na escola primária, os colegas de classe inocentemente lhe diziam palavras ofensivas que nunca diriam a pessoas da mesma cor de pele.
Mesmo quando alguém se recusou a aceitar o almoço escolar que ela serviu, dizendo que era "sujo", Kashiwakura nunca falou sobre o insulto em casa.
Ela não queria atacar os pais porque já sabia dos olhares que seu pai tinha que suportar em público.
Nessas ocasiões, Kashiwakura e seu irmão mais velho sentavam-se em frente à televisão e fingiam ser heróis de anime.
Ela deixou que seus personagens amados vivessem em sua mente, lutassem ao seu lado e se fortalecessem.
Por fim, ela passou a acreditar: “Leila só pode ser Leila, e é tudo o que preciso”.
Kashiwakura então frequentou a Faculdade de Artes da Universidade Nihon, aspirando se tornar um criador de anime.
No segundo ano, ela viu uma notícia em seu celular que a deixou perplexa: um nigeriano havia morrido de fome em uma unidade de imigração japonesa.
Ele entrou em greve de fome após recusar uma ordem de deportação porque não queria se separar do filho.
O homem lembrou Kashiwakura de seu próprio pai.
Um sentimento de medo que a abalava profundamente não saía de sua mente, mesmo quando ela ria com os amigos.
Ela percebeu que a única maneira de lidar com esse sentimento era se colocar em posição de proteger os outros.
Kashiwakura começou a estudar Direito enquanto cursava a universidade. Ela foi aprovada no exame da OAB enquanto ainda cursava a faculdade.
Nesta primavera, ela começou a trabalhar como advogada, lidando principalmente com questões enfrentadas por estrangeiros.
No Japão, há poucos advogados com ascendência estrangeira.
Mesmo quando Kashiwakura visita delegacias ou tribunais a trabalho, poucas pessoas presumem que ela seja advogada. Às vezes, ela é solicitada a passar por revistas de bolsas.
Por outro lado, alguns clientes estrangeiros parecem visivelmente aliviados no momento em que a veem.
"Eu realmente gostei da minha aparência", ela disse.
Kashiwakura se sente desconfortável em uma sociedade que deu origem ao termo populista "japonês primeiro".
Mas seus sentimentos são mais complexos do que simples raiva. Ela se pergunta o que leva as pessoas a pensarem assim.
Em seu mangá favorito, "Attack on Titan", aqueles que são discriminados contra o Can, por sua vez, tornam-se pessoas que discriminam.
Ela guarda uma citação do mangá bem perto do coração.
Um pai que perdeu a filha enquanto tentava quebrar o ciclo de ódio diz: "No mínimo, precisamos tirar as crianças desta floresta".
Ela continua se perguntando como as pessoas podem se libertar desse ciclo.
Kashiwakura não consegue esquecer as palavras de um homem que recebeu status de refugiado no Japão depois de enfrentar uma longa luta.
O homem disse que comida deliciosa tem um sabor ainda melhor e é mais agradável quando você a compartilha com a pessoa ao seu lado, em vez de comer sozinho.
Este é o tipo de sociedade que ela quer ajudar a construir.
Kashiwakura interpretará um estudante do ensino médio de ascendência africana na produção teatral de "Mogareta Tsubasa (Asas Rasgadas): Raízes Quadradas" em Tóquio, nos dias 9 e 10 de agosto.
Advogados trabalham com crianças na série de jogos original desde 1994.
A produção deste ano retrata como crianças com raízes estrangeiras vivem no Japão.
Por meio da performance, ela quer dizer às crianças que lutam contra suas raízes ou nacionalidade: "Vocês não precisam se forçar a encontrar uma resposta. Vocês são quem são. E isso, por si só, os torna perfeitos."
* * *
Para mais informações sobre a peça, visite o site em japonês da Ordem dos Advogados de Tóquio.

