Sucesso de bilheteria 'Kokuho' dá ao Kabuki um novo momento cultural no Japão
Tóquio – O cinema moderno mostrou que pode dar nova vida às formas de arte tradicionais, especialmente no Japão, onde os filmes live-action historicamente têm lutado para deixar uma marca cultural duradoura.
"Kokuho", um filme centrado no Kabuki, não só se tornou um sucesso de bilheteria surpreendente no Japão, mas também reavivou o interesse público pela arte performática durante séculos.
Retratando uma mistura cativante de ação no palco com figurinos resplandecentes e dramas pessoais nos círculos insulares do Kabuki, o filme estrelado por Ryo Yoshizawa arrecadou 12,4 bilhões de ienes (US$ 84 milhões) entre seu lançamento doméstico em 6 de junho e o final de agosto.
No Japão, títulos de anime e sucessos de bilheteria estrangeiros dominam as bilheterias há décadas. Mas "Kokuho", que significa "tesouro nacional", já é o segundo filme live-action nacional de maior bilheteria.
"Kokuho" ultrapassou "Nankyoku Monogatari" (Antártida), uma história real de 1983 sobre uma matilha de cães abandonada por cientistas no continente gelado do sul, ficando logo abaixo da comédia policial de 2003 "The Move 2 Rainbow Bridge-O-Fusaseyo" (Bayside Shakedown 2), que arrecadou 17.3 bilhões de ienes.
Sua duração de quase três horas não desanimou os espectadores, e sua popularidade, por sua vez, alimentou um interesse renovado na cultura Kabuki, bem como no romance de Shuichi Yoshida no qual o filme é baseado.
Os volumes um e dois dos livros de bolso venderam um total de 1,5 milhão de cópias, enquanto Kabuki Techo, uma revista sobre Kabuki publicada pela Associação de Atores do Japão e outras, tem visto um interesse crescente.
"Cada vez mais pessoas estão interessadas em aprender mais sobre o Kabuki", disse um representante da associação.
A história de "Kokuho" é centrada em Kikuo de Yoshizawa, filho de um membro do clã Yakuza, adotado por uma prestigiosa família Kabuki e criado ao lado de Shunsuke, filho e herdeiro do mestre Kabuki interpretado por Ryusei Yokohama.
O filme retrata a luta de Kikuo para ascender no mundo do Kabuki por meio do talento, e não da linhagem, superando dificuldades e aprimorando sua arte com o apoio de outros. Seu objetivo final era ser reconhecido como um "tesouro nacional vivo".
"Estou feliz que tantas pessoas tenham gostado do filme", disse Yoshizawa ao público durante uma aparição em Tóquio em julho.
O ator, que treinou Kabuki por um ano e meio para se preparar para o papel, descreveu sentimentos contraditórios após a produção.
"Senti uma emoção complexa que nunca havia experimentado antes, algo que não era nem uma sensação de realização nem de tristeza", disse ele.
Em uma entrevista antes do lançamento do filme, o diretor coreano de Zainichi, Lee Sang IL, disse: "A energia nascida da sobreposição entre a vida real de Kikuo e Shunsuke e seus papéis foi única."
O filme recebeu aplausos estrondosos após sua exibição na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cinema de Cannes em maio, com Lee elogiando as atuações de Yoshizawa e Yokohama.
“Sem a dedicação e o esforço deles, não teríamos conseguido criar tanta autenticidade”, disse ele.
A crítica de kabuki Shoko Kodama foi efusiva em seus elogios. Ela atribuiu o sucesso do filme ao seu "gosto refrescante" e elogiou seu visual.
“As atuações dos dois atores e os figurinos eram tão lindos que nem percebi o tempo de execução”, disse ela.
Kodama também fez comparações com os populares filmes "Geidomono" — um gênero que retrata artistas superando treinamento rigoroso e barreiras de linhagem e talento — como "Zangiku Monogatari", de Kenji Mizoguchi.
Ela observou que, embora "Kokuho" continue sendo uma história onírica, distinta da realidade, ela conecta habilmente cenas memoráveis, ao mesmo tempo em que deixa o público imaginar as lutas mais severas que devem ter ocorrido entre os dois.
O jovem ator de kabuki Ichiya Kataoka, que, assim como Kikuo, entrou na profissão como um estranho, chamou a história de surpreendentemente moderna.
"É muito contemporâneo na forma como retrata os esforços do filho privilegiado Shunsuke e evita criar vilões óbvios", disse ele.
Kataoka acrescentou que espera que a história de Kikuo e outros no filme possa transmitir a paixão dos artistas de Kabuki para aqueles que não estão familiarizados com a arte.
Por que nos dedicamos a essa forma de arte atemporal? Só posso dizer que é porque a amamos. Acho que continuamos porque o público quer ver aquela 'coisa' que só existe no finalzinho.

