Em 2002, o Japão instou a Coreia do Norte a abandonar seu programa nuclear, citando a derrota na Segunda Guerra Mundial (arquivos).
LONDRES — O Japão instou a Coreia do Norte a abandonar seu programa de desenvolvimento nuclear em uma reunião de líderes em 2002, comparando a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial à situação de Pyongyang, de acordo com documentos diplomáticos desclassificados nesta terça-feira pelo governo britânico.
O primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, disse ao líder norte-coreano, Kim Jong Il, durante conversas em Pyongyang, em setembro de 2002, que o Japão havia "travado e perdido uma guerra imprudente" contra os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, de acordo com registros, em uma rara divulgação de detalhes da primeira cúpula entre as duas nações.
A Coreia do Norte "não poderia derrotar" esses países, mas "poderia cooperar com eles", disse Koizumi a Kim, acrescentando que "a única opção inteligente para a Coreia do Norte era se tornar um membro responsável da comunidade internacional", de acordo com os registros.
Os documentos mostram como Koizumi relatou suas conversas com Kim quando se encontrou com o então primeiro-ministro britânico Tony Blair em Hakone, a sudoeste de Tóquio, em julho de 2003, ao refletir sobre a histórica cúpula com Kim, cujo país era suspeito de desenvolver armas nucleares.
No entanto, Koizumi, que foi primeiro-ministro de 2001 a 2006, disse a Blair que era "improvável que a Coreia do Norte abandonasse" seu programa de armas nucleares e que um diálogo multilateral envolvendo China, Coreia do Sul e Japão seria "essencial".
Na época, o governo do presidente dos EUA, George W. Bush, conduzia operações militares no Afeganistão em resposta aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, enquanto simultaneamente classificava a Coreia do Norte, juntamente com o Irã e o Iraque, como o "eixo do mal" em seu discurso sobre o Estado da União de 2002.
Koizumi disse a Blair que Pyongyang queria garantias de Washington de que não "derrubaria o regime" e que a guerra dos EUA no Afeganistão e a retórica do "eixo do mal" contribuíram para a realização da cúpula Japão-Coreia do Norte.
Segundo os registros, Koizumi também afirmou que a questão nuclear norte-coreana foi "complicada" pelo sequestro de cidadãos japoneses por Pyongyang nas décadas de 1970 e 1980.
Após a visita de Koizumi à Coreia do Norte, cinco pessoas sequestradas retornaram ao Japão em outubro de 2002. Tóquio lista oficialmente 17 pessoas sequestradas, incluindo cinco, enquanto Pyongyang afirma que oito morreram e as outras quatro nunca entraram no país.
Os documentos recentemente divulgados também incluem relatos de outra cúpula Japão-Reino Unido em junho de 2004 nos Estados Unidos, durante a qual Koizumi informou Blair sobre seu segundo encontro com Kim em Pyongyang no mês anterior.
Durante a segunda rodada de negociações, Koizumi instou Kim a "desarmar-se como a Líbia", que havia conseguido o levantamento de algumas sanções econômicas dos EUA ao abandonar seu programa de desenvolvimento nuclear. Mas Kim respondeu que a Líbia não tinha armas nucleares, "o que significa que nós temos", de acordo com os registros.
Atsuhito Isozaki, professor da Universidade Keio e especialista em assuntos norte-coreanos, afirmou ser "bastante raro" que detalhes das cúpulas entre Japão e Coreia do Norte sejam divulgados.
Os arquivos diplomáticos britânicos fornecem evidências importantes de que o Japão, na época, "estava tentando tomar iniciativas não apenas na questão dos sequestros, mas também na questão nuclear" da Coreia do Norte, disse Isozaki.
Kim é o falecido pai do atual líder do país, Kim Jong Un, sob cujo comando a Coreia do Norte continuou a desenvolver suas armas nucleares e mísseis e realizou testes nucleares, representando assim ameaças militares ao Japão, à Coreia do Sul e a outros países.

