O Japão deveria liderar a mediação para um cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã.

O Japão deveria liderar a mediação para um cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã.

TÓQUIO – A ascensão do primeiro governo do presidente americano Donald Trump sugeriu a chegada de uma nova era da Guerra Fria, caracterizada pela “competição entre grandes potências”. No entanto, dez anos depois, a perspectiva de uma nova Guerra Fria, com o campo democrático enfrentando um novo “eixo do mal” composto por China, Rússia, Irã e Coreia do Norte, rapidamente se dissipou.

O início do segundo mandato de Trump provocou o que a cientista política americana Stacie Goddard chama de "conluio entre grandes potências", no qual "a força faz o direito" é colocada em primeiro plano e acordos com a China e a Rússia são buscados.

Num contexto de ressurgimento da política entre grandes potências, as alianças com os Estados Unidos perderam sua proeminência. Uma vez que os Estados Unidos declararam que "não são a polícia do mundo", talvez fosse necessário prever que alianças assimétricas com os Estados Unidos se tornariam alvos de "conluio entre grandes potências".

O colapso da ordem internacional liberal do pós-guerra e o ressurgimento da política de grandes potências levaram as alianças a passar de estruturas de cooperação internacional baseadas em valores e princípios compartilhados para instrumentos que lembram as políticas de equilíbrio de poder das grandes potências dos séculos XVIII e XIX.

Para o governo Trump, apenas as grandes potências capazes de influenciar o equilíbrio de poder são consideradas aliadas. Alianças frágeis que dependem da defesa americana podem ser vistas como fardos desnecessários para esse equilíbrio. Contudo, mesmo com o enfraquecimento dos compromissos de defesa americanos, os aliados que não têm alternativa aos Estados Unidos encontram-se numa posição difícil.

O Japão é o aliado mais vulnerável, carecendo de autonomia por aderir a uma política exclusivamente defensiva, limitada por sua Constituição pacifista, e por depender dos Estados Unidos para dissuasão. Para transformar o tratado de segurança unilateral entre o Japão e os Estados Unidos em um tratado de defesa mútua, é necessária uma emenda constitucional.

Apesar dessa vulnerabilidade, o governo Trump parece estar posicionando o Japão como parte de um grupo de grandes potências conhecido como "C5 (Core Five)", ao lado dos Estados Unidos, China, Rússia e Índia. Isso contrasta fortemente com a aparente marginalização dos países europeus na "Estratégia de Segurança Nacional dos EUA", publicada no final de 2025.

Além da alta consideração atribuída ao poder nacional do Japão como um todo, a forte base de apoio interna da primeira-ministra Sanae Takaichi e os laços historicamente amistosos do Japão com o Irã são ativos valiosos que podem ser explorados na diplomacia baseada em acordos entre grandes potências.

A cúpula Japão-EUA entre Takaichi e Trump ocorreu num momento em que liderar a aliança era extremamente difícil. Além disso, num contexto de crescentes tensões no Oriente Médio, o Japão precisava encontrar uma solução que satisfizesse tanto a exigência dos EUA de enviar navios ao Estreito de Ormuz quanto a exigência do Irã de não intervenção.

Mesmo nessas circunstâncias, o Japão conseguiu evitar que a questão do transporte dos navios se tornasse um ponto de discórdia. Em uma declaração conjunta com países como Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália, expressou sua posição de estar "pronto para contribuir com os esforços apropriados" visando uma rápida desescalada dos combates e a subsequente navegação segura dos navios, garantindo assim a aceitação dos Estados Unidos.

No futuro, o Japão deve continuar a seguir sua abordagem singular de mediação diplomática discreta para facilitar a comunicação entre o Irã e os Estados Unidos. Deve também buscar maneiras de dar forma concreta à declaração conjunta, por exemplo, liderando um esforço multinacional de desminagem (uma força-tarefa marítima) para garantir a segurança da navegação após um cessar-fogo.




Yasuhiro Takeda nasceu em 1956 em Nagoya. Formou-se na Universidade de Hokkaido e obteve um doutorado na Universidade de Tóquio. Aposentou-se no final de março de 2026 como professor da Universidade Internacional de Tóquio, onde também lecionava na Academia Nacional de Defesa. Sua área de especialização é política internacional e estudos de segurança. Entre suas obras, destaca-se "O Custo da Aliança Japão-EUA".