A aposta antecipada do primeiro-ministro Takaichi nas eleições pode se revelar contraproducente em um contexto de escasso debate político.
TÓQUIO – Confiando em seu alto índice de aprovação, a aposta do primeiro-ministro Sanae Takaichi de dissolver a Câmara dos Representantes do Japão na sexta-feira para eleições gerais, evitando debates políticos substanciais, pode se revelar contraproducente.
A disputa por uma vaga na Câmara Baixa, marcada para 8 de fevereiro, após uma dissolução incomum na abertura de uma sessão parlamentar ordinária, verá as eleições nacionais ocorrerem menos de quatro meses depois de Takaichi, a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Japão.
Especialistas políticos dizem que Takaichi optou por uma dissolução antecipada por temer que a popularidade de seu gabinete pudesse cair quando os debates parlamentares começassem, com a expectativa de que parlamentares da oposição pressionassem o governo por conta de alguns escândalos antigos.
Com o apoio do Partido Liberal Democrático, no poder, cuja confiança pública foi abalada por escândalos de fundos ilícitos e ligações duvidosas a um grupo religioso controverso, especialistas preveem que as eleições deste ano poderão trazer resultados difíceis para Takaichi.
Desde a sua posse em 21 de outubro, o governo de Takaichi mantém um alto índice de aprovação, em torno de 70%, enquanto a coligação liderada pelo PLD e pelo Partido da Inovação do Japão, formada um dia antes de ele assumir o cargo de primeiro-ministro, detém apenas uma pequena maioria na Câmara Baixa.
Embora a dissolução antecipada da câmara baixa tenha sido considerada uma possível medida para romper o impasse político, muitos duvidavam que Takaichi agisse antes da aprovação da proposta inicial de orçamento para o ano fiscal de 2026, que começa em abril.
Desde 1966, nenhum primeiro-ministro dissolveu a câmara baixa no início da sessão ordinária da Dieta, uma vez que as deliberações para a aprovação do orçamento inicial até o final de março tradicionalmente têm prioridade.
Naoto Nonaka, professor de ciência política na Universidade Gakushuin, descreveu a decisão de Takaichi de dissolver abruptamente a câmara baixa como "egoísta e injustificada", visando unicamente capitalizar seus altos índices de popularidade.
Takaichi, conhecida como uma legisladora conservadora em matéria de segurança nacional, "provavelmente reconheceu que, uma vez iniciados os debates parlamentares, sua popularidade inevitavelmente cairia", disse Nonaka.
Embora Takaichi tenha reconhecido que a decisão envolvia "uma enorme perda a perder", incluindo o quase abandono da aprovação do orçamento até o final do ano fiscal, ela pode ter concluído que esta era "a única vez em que tal aposta era possível", disse ele.
Nonaka também destacou uma tendência, sob governos liderados pelo PLD, de intervalos menores entre a dissolução da câmara baixa e o dia da votação.
Com 16 dias de duração, as próximas eleições serão as mais curtas desde a guerra, em comparação com os 18 dias de 2024 e os 17 dias de 2021.
"Ao privar os eleitores e os partidos da oposição do tempo necessário para refletir, o governo consegue evitar explicar completamente várias questões", disse Nonaka, acrescentando: "O PLD encontrou uma maneira de conseguir isso."
Em uma coletiva de imprensa convocada às pressas na segunda-feira para anunciar seu plano de dissolver o partido, Takaichi enfatizou que a disputa seria "uma eleição para escolher o primeiro-ministro", embora o sistema japonês não permita que os eleitores elejam diretamente o líder do país.
Caso o LDP e o JIP consigam garantir a maioria na Câmara Baixa, o primeiro-ministro será Takaichi, mas, caso contrário, poderá ser Yoshihiko Noda, Tetsuo Saito ou outro, disse ela, referindo-se aos líderes do recém-formado principal partido da oposição.
Noda, ex-primeiro-ministro, era o líder do Partido Democrático Constitucional do Japão, enquanto Saito liderava o partido Komeito. Os dois partidos formaram uma frente unida para as eleições, criando a Aliança Reformista Centrista.
Nonaka afirmou que as declarações de Takaichi refletiam sua ênfase em explorar os índices de aprovação em vez de buscar o julgamento dos eleitores sobre políticas concretas.
Na mesma conferência de imprensa, a única proposta política concreta que ela mencionou foi uma isenção de dois anos do imposto sobre o consumo de produtos alimentares, medida que tem sido frequentemente criticada por ser populista e por representar uma ruptura com a posição anterior do PLD.
Mas é amplamente visto como uma tentativa de impedir que o imposto sobre o consumo se torne um tema central da campanha, visto que muitos partidos da oposição já apresentaram ideias semelhantes.
Kentaro Yamamoto, professor da Universidade Kokugakuin, afirmou que a incapacidade de Takaichi de articular políticas detalhadas se devia em parte ao momento oportuno, visto que a elaboração do orçamento para o próximo ano fiscal só havia sido concluída no final de dezembro.
"Se ela apresentasse novas políticas, a questão seria por que elas não foram incluídas na proposta orçamentária", disse Yamamoto, que conhece bem a política japonesa.
Outro problema para o PLD, segundo especialistas, é a sua incapacidade de recuperar o apoio popular após o escândalo do fundo secreto, amplamente divulgado no final de 2023, que representou um duro golpe para o partido nas eleições nacionais dos últimos dois anos.
Segundo pesquisas de opinião pública, o índice de aprovação do PLD gira em torno de 30%, um nível praticamente inalterado em relação ao antecessor de Takaichi, Shigeru Ishiba.
Yamamoto afirmou que esse número sugere que muitos eleitores que apoiam pessoalmente Takaichi, mas não o PLD, podem, em vez disso, votar em partidos de oposição que defendem políticas conservadoras, como o Partido Democrático Popular e o Partido Sanseito.
Ambos os partidos obtiveram progressos significativos nas eleições para a Câmara dos Conselheiros realizadas em julho do ano passado.
"A questão crucial será se a mensagem do primeiro-ministro, de que esta é uma eleição para escolher o governo e que os eleitores que o apoiam devem apoiar o PLD, terá ressonância entre os eleitores", disse Yamamoto.

