As candidatas representam um número recorde de 24,4% nas pesquisas para a câmara baixa do Japão.

O poder do primeiro-ministro japonês de dissolver a câmara baixa está gerando debates às vésperas das eleições.

TÓQUIO – O debate sobre a "prerrogativa exclusiva" do primeiro-ministro de dissolver a Câmara dos Representantes está ganhando força no Japão após o recente uso dessa prerrogativa pela atual primeira-ministra, Sanae Takaichi, o que levou alguns parlamentares da oposição a defenderem que esse poder deveria ser limitado.

As eleições gerais resultantes, em 8 de fevereiro, menos de 16 meses após as anteriores, em outubro de 2024, levaram partidos da oposição, como a nova Aliança Reformista de centro, a propor a restrição desse poder, desafiando a antiga premissa da política japonesa de que cabe ao primeiro-ministro decidir se – e quando – deve dissolver a poderosa câmara baixa.

A Constituição japonesa não estipula que o Primeiro-Ministro possa dissolver a Câmara. No entanto, o Artigo 7º afirma que a Câmara pode ser dissolvida pelo Imperador "com o conselho e a aprovação" do Gabinete, e isso tem sido interpretado há muito tempo como conferindo ao Primeiro-Ministro poder discricionário para dissolver a Câmara, visto que o Imperador não interfere na política.

Especialistas jurídicos acreditam que o exercício "arbitrário" da autoridade pelo governo, que não está explicitamente previsto na Constituição como sendo concedido ao Gabinete, é indesejável, e defendem discussões parlamentares mais aprofundadas para se chegar a um consenso mais amplo.

Takaichi, que manteve índices de aprovação relativamente altos desde que assumiu o cargo em outubro, dissolveu a Câmara Baixa em 23 de janeiro, no início da sessão parlamentar regular, a primeira medida desse tipo sem debate prévio na Dieta desde 1966. A decisão encurtou o mandato de quatro anos dos membros da Câmara Baixa, que deveria se estender até 2028.

"O Japão usa o poder de dissolver (a câmara baixa) com mais frequência do que qualquer outro país", disse Satoshi Honjo, co-líder político do novo partido centrista, a repórteres em janeiro, acrescentando que esse poder deve ser exercido com moderação.

A Aliança Reformista Centrista, principal partido de oposição, lançada pelo Partido Democrático Constitucional do Japão e pelo partido Komeito, declarou em seu programa eleitoral que esclareceria a autoridade do primeiro-ministro para dissolver o parlamento, a fim de "impedir dissoluções que não levem em consideração a opinião pública".

O pequeno partido social-democrata da oposição fez uma promessa eleitoral semelhante.

Takaichi, líder do Partido Liberal Democrático, pretende transformar a pequena maioria que seu partido detinha na Câmara, juntamente com o Partido da Inovação do Japão, seu parceiro de coalizão, em uma maioria mais confortável.

Em uma coletiva de imprensa realizada em 19 de janeiro, Takaichi afirmou que a dissolução era necessária, uma vez que o novo bloco governante formado em outubro, juntamente com "grandes mudanças políticas", como sua postura fiscal "responsável, porém agressiva", "ainda não havia recebido um mandato direto dos eleitores".

A decisão de Takaichi destacou duas disposições constitucionais: o Artigo 7 e o Artigo 69, uma cláusula que obriga o Gabinete a renunciar em massa, a menos que a Câmara seja dissolvida no prazo de 10 dias após a aprovação ou rejeição de uma moção de censura.

No passado, houve processos judiciais alegando que as dissoluções das câmaras baixas não baseadas no Artigo 69 eram inconstitucionais, mas o Supremo Tribunal evitou uma decisão constitucional em seu acórdão de 1960, afirmando que atos altamente políticos do Estado estavam além do controle judicial.

Desde então, o Artigo 7º tem sido interpretado como autorizando o Primeiro-Ministro, como chefe do Gabinete, a dissolver a Câmara Baixa à vontade para obter vantagem política. Segundo especialistas, essa prática tornou-se profundamente enraizada.

Após a mídia japonesa começar a noticiar, em meados de janeiro, uma possível dissolução do governo por Takaichi, membros do gabinete, incluindo o secretário-chefe do gabinete, Minoru Kihara, recusaram-se a comentar, afirmando que era "prerrogativa exclusiva do primeiro-ministro".

As forças de oposição criticaram a dissolução como politicamente motivada e sem justificativa convincente, argumentando que Takaichi está simplesmente tentando capitalizar seu forte apoio popular para aumentar o número de cadeiras na câmara baixa.

Takeshi Inoue, professor de direito da Universidade Kwansei Gakuin, afirmou que é essencial restringir ou formalizar as regras de dissolução, mas exemplos internacionais mostram que tais esforços têm tido sucesso limitado.

Inoue citou uma legislação britânica de 2011 que retirava o poder do Primeiro-Ministro de dissolver o Parlamento, a qual foi revogada em 2022 após causar um impasse político.

Referindo-se à Constituição japonesa, que estabelece o mandato dos membros da câmara baixa em quatro anos, Inoue afirmou que dissolver a câmara na metade do mandato equivale a "extinguir o mandato dos legisladores" por meio de medidas coercitivas e poderia "abrir espaço para novos questionamentos judiciais".

Outro especialista, Motohiro Hashimoto, professor da Faculdade de Direito da Universidade Chuo, afirmou que o debate parlamentar deveria confirmar que a dissolução "não é uma prerrogativa exclusiva nem o último recurso do Primeiro-Ministro, mas sim uma autoridade do Gabinete como um todo", pelo menos.

Hashimoto, que também é vice-presidente da universidade, afirmou que as dissoluções previstas no Artigo 69 devem ser tratadas como procedimento padrão, sendo os demais casos considerados excepcionais. Ele acrescentou que seria necessário esclarecer "em que circunstâncias dissoluções excepcionais podem ser permitidas".

Ao comentar sobre a dissolução do Parlamento de Takaichi, Hashimoto disse que provavelmente era a dissolução "menos justificável" sob a Constituição atual, acrescentando que as escolhas dos eleitores nas urnas seriam agora o único meio eficaz de oposição.