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As antigas filiais da Igreja da Unificação fecharam, deixando os fiéis à deriva.

Os liquidadores estão a avançar rapidamente com os processos contra a antiga Igreja da Unificação, forçando o encerramento de filiais, dormitórios e serviços em todo o país e mergulhando os seus seguidores em desordem e tristeza.

A Igreja, oficialmente chamada de Federação das Famílias para a Paz Mundial e Unificação, entrou com um recurso especial no Supremo Tribunal em 9 de março contra a dissolução determinada pelo tribunal.

No entanto, a confirmação da decisão do Tribunal Distrital de Tóquio pelo Tribunal Superior de Tóquio permitiu o início do processo de liquidação.

O governo solicitou a dissolução da igreja devido ao longo histórico de práticas questionáveis ​​de arrecadação de fundos por parte da instituição. Os tribunais reconheceram que a igreja causou prejuízos financeiros aos seus membros e famílias, além de danos à sociedade.

Por volta do meio-dia de 4 de março, aproximadamente uma hora após a Suprema Corte ter divulgado sua decisão, um grupo de cerca de 20 liquidadores, representantes e seguranças entrou na sede da igreja, localizada em uma área residencial de alto padrão no distrito de Shibuya, em Tóquio.

Segundo um funcionário da igreja, os liquidadores pediram aos funcionários que "cessassem as atividades" e exigiram as senhas dos computadores e outros equipamentos.

Os trabalhos continuaram até por volta das 19h, altura em que os funcionários da igreja foram solicitados a recolher os seus pertences e a deixar as instalações.

Desde 5 de março, os funcionários foram instruídos a permanecer em casa, aguardando possível intimação dos liquidadores.

A Igreja também perdeu o acesso ao seu site oficial e ao sistema de portal interno, limitando assim sua capacidade de divulgar mensagens públicas.

CHOQUE ATINGE IGREJAS LOCAIS

Os liquidadores também entraram nas cerca de 280 outras instalações da Igreja em todo o país e restringiram o acesso a elas.

Na igreja da família Shimonoseki, em Shimonoseki, província de Yamaguchi, três homens que se identificaram como "representantes do liquidatário" chegaram por volta das 14h do dia 4 de março.

Segundo um funcionário da igreja, os representantes explicaram o processo de liquidação e exigiram extratos bancários, dinheiro em espécie, listas de membros e doadores, além das chaves da igreja.

Em seguida, foi afixado um aviso na porta da igreja: "A entrada neste estabelecimento sem a permissão do liquidatário é proibida."

O representante da igreja disse sobre o ocorrido: "Foi como uma ordem de apreensão, e o choque foi imenso. Venho a esta igreja há décadas. Senti como se todas as minhas memórias estivessem sendo negadas."

A VIDA COTIDIANA AUMENTOU

Os cultos de domingo nas igrejas da organização em todo o Japão também foram suspensos.

No dia 8 de março, o primeiro domingo após o início da liquidação, seguidores de todo o país teriam se conectado por meio de uma transmissão no YouTube para orar de suas casas.

Os seguidores expressaram um profundo sentimento de perda.

"A igreja de repente se tornou inutilizável, e sinto como se uma parte da minha vida tivesse desaparecido", disse uma mulher na casa dos quarenta anos que frequentava a igreja em Shimonoseki. "Reunir-me e conversar com outros fiéis faz parte da nossa religião, e estamos realmente sofrendo."

Outra seguidora, na casa dos sessenta anos, declarou em meio a lágrimas: "Com o passar do tempo, a tristeza de não poder ver todos aumenta."

Os dormitórios da igreja, que abrigam principalmente fiéis adolescentes e jovens adultos que se mudaram para Tóquio, também foram alvos de liquidação.

Com dezenas de dormitórios desse tipo espalhados pelo país, alguns moradores seriam obrigados a encontrar novas acomodações.

104 BILHÕES DE IENES EM ATIVOS

O advogado Hisashi Ito, liquidatário nomeado pelo tribunal, anunciou em uma coletiva de imprensa na noite de 4 de março que uma equipe de "centenas" de liquidatários e representantes visitaria igrejas em todo o país para explicar os procedimentos.

De acordo com a decisão do Supremo Tribunal, os ativos da Igreja totalizavam 104 bilhões de ienes (US$ 660 milhões) no final do ano fiscal de 2024.

Esses ativos serão administrados pelos liquidadores, com ênfase na indenização das vítimas.

As diretrizes publicadas no outono passado pela Agência de Assuntos Culturais descrevem um longo processo de compensação. A agência sugere permitir o uso limitado das instalações da igreja para mitigar o impacto nas atividades religiosas.

Ito afirmou que tal uso estaria condicionado à adesão da Igreja a regras estritas que não interfiram nos procedimentos.

Advogados alertam para uma brecha na lei.

A Rede Nacional de Advogados Contra a Venda de Produtos Espirituais, que lida com casos de doações em larga escala para a Igreja, insiste que "as atividades ilegais da Igreja devem ser impedidas".

O grupo está preocupado porque a igreja designou outra organização religiosa, a Tenchi Seikyo, em Obihiro, Hokkaido, para receber seus bens remanescentes após a dissolução.

A rede de advogados alerta que, se os bens forem transferidos, existe o risco de as "atividades ilegais de arrecadação de fundos" continuarem.

(Este artigo foi escrito por Amane Shimazaki, Yosuke Takashima e o editor principal Nobuya Sawa.)