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Os promotores estão pedindo prisão perpétua para Yamagami em relação à morte de Abe.

NARA — Em 18 de dezembro, os promotores pediram prisão perpétua para o homem acusado de assassinar o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, classificando o crime como "um caso sem precedentes na história do pós-guerra" que teve um enorme impacto na sociedade.

O suspeito, Tetsuya Yamagami, de 45 anos, confessou ter assassinado Abe a tiros durante uma campanha eleitoral em Nara, em julho de 2022.

A principal questão relativa ao seu julgamento perante um juiz não profissional diz respeito à pena que lhe será imposta.

Durante a 15ª audiência do seu julgamento por homicídio no Tribunal Distrital de Nara, os procuradores declararam que uma pena de prisão perpétua era justificada para este "ato grave" cometido em público, em plena luz do dia.

"Não podemos permitir que imitadores imitem o crime do réu", disseram eles.

Yamagami afirmou que atacou Abe por causa de seus laços com a antiga Igreja da Unificação. Ele disse que as repetidas doações de sua mãe para a organização religiosa arruinaram sua família e o levaram a viver na pobreza.

No entanto, os promotores disseram que o fato de Yamagami ter como alvo Abe, depois de ter dificuldades em atacar líderes religiosos, representou um "salto lógico".

A equipe de defesa de Yamagami declarou em suas conclusões finais que "a prisão perpétua é excessivamente severa" e recomendou que a sentença "seja mantida em 20 anos de prisão".

"Uma criação trágica causada por doações ilegais está diretamente ligada ao motivo do crime, e o acusado é vítima de abuso religioso", argumentou a defesa.

O juiz presidente perguntou a Yamagami se ele tinha algo a dizer ao final do julgamento.

Sem se mover de seu lugar no lado da defesa, Yamagami respondeu: "Não tenho nada a dizer."

O veredicto e a sentença são esperados para 21 de janeiro.

ARGUMENTO DA ACUSAÇÃO

Em suas conclusões finais, a acusação enfatizou que Abe foi vítima inocente de um "crime míope e egoísta que desconsiderou a vida humana".

"Ele não havia feito nada de errado que justificasse sua morte, e era simplesmente um político proeminente", afirmou a acusação. "E, nas próprias palavras do réu, (Abe) ele 'não era o principal problema'."

A acusação também afirmou que o disparo da arma caseira de Yamagami em frente a uma estação de trem movimentada colocou muitas outras pessoas em perigo.

"A espingarda do réu dispara vários projéteis de uma só vez e, apesar da taxa de mortalidade extremamente alta, não se sabe para onde eles voariam, o que a torna extremamente perigosa e maliciosa", disseram eles.

Com relação às substanciais doações da mãe para a antiga Igreja da Unificação, agora chamada Federação das Famílias para a Paz Mundial e Unificação, a acusação afirmou que a organização havia reembolsado 50 milhões de ienes (US$ 321.000) e que o próprio réu também havia recebido pagamentos mensais.

"Ele deveria ter sido capaz de viver sem dificuldades financeiras", afirmou a promotoria. "Houve momentos em que se poderia reconsiderar o crime."

Os promotores não negaram que a discórdia familiar do réu tenha influenciado suas ações.

Mas eles afirmam que pessoas em circunstâncias ainda mais desfavoráveis ​​superaram seus problemas sem recorrer ao crime.

"Ele é um homem na casa dos quarenta que sabe distinguir o certo do errado", disseram eles.

Eles também mencionaram o fato de Yamagami não ter pedido desculpas à família enlutada antes do julgamento.

"Não podemos reconhecer que a introspecção do acusado tenha se aprofundado."

DECLARAÇÃO DE AKIE ABE

Antes das conclusões finais da acusação, um representante leu uma declaração da viúva de Abe, Akie.

Ela afirmou que, após a morte de Abe, mensagens chegaram de líderes de vários países e que muitas pessoas compareceram ao funeral.

"Graças ao julgamento, percebi que meu marido era dedicado ao Japão e ao povo japonês, e que dedicou sua vida à paz mundial", disse ela em comunicado.

“Todos estão de luto pela morte do político Shinzo Abe, mas para mim, além de ser um político, perdi o único e insubstituível membro da minha família”, continuou o comunicado. “Jamais aceitarei esse sentimento de perda pelo resto da minha vida.”

Como mensagem para Yamagami, Akie declarou: "Por favor, assuma a responsabilidade pelo que você fez e esforce-se para se redimir do seu crime."

ARGUMENTO DE DEFESA

Após a morte de Abe, as ligações dos políticos com a Igreja foram reveladas e os métodos de arrecadação de fundos da organização foram examinados novamente.

O Tribunal Distrital de Tóquio ordenou a dissolução da igreja no início deste ano.

Em seus argumentos finais de defesa, eles enfatizaram que Yamagami havia sido encurralado.

"Na época (do incidente), a questão dos membros de segunda geração de grupos religiosos ainda não havia se tornado um problema social e o acusado havia ficado para trás", disseram eles.

"O acusado não conseguiu levantar a voz (sobre sua situação) e, mesmo que tivesse falado, provavelmente não teriam acreditado nele", disseram.

"Era difícil para o próprio acusado entender exatamente em que tipo de situação ele se encontrava."

A defesa também salientou que a fé da mãe na Igreja fez da acusada vítima de abuso religioso.

Eles afirmaram que a educação que ele recebeu em casa deveria ser levada em consideração na determinação da sentença.

"Um certo período de prisão é inevitável. O réu compreende e aceita isso plenamente", afirmou a defesa. "Embora a prisão seja inevitável, ele deve ter a oportunidade de se reintegrar à sociedade após cumprir sua pena."