Residentes estrangeiros opinam sobre o slogan "Japonês em Primeiro Lugar"
TÓQUIO – O Partido Sanseito, de cunho populista, surpreendeu a nação ao conquistar várias cadeiras nas eleições para a Câmara Alta em julho. Mas seu slogan "Japão Primeiro" tem sido amplamente criticado por ser xenófobo, e os estrangeiros residentes no Japão estão preocupados com o aumento da discriminação.
Em 2024, o número de residentes estrangeiros no Japão aumentou mais de 10%, chegando a 3,76 milhões, um novo recorde pelo terceiro ano consecutivo e representando pouco mais de 3% da população. O líder do Sanseito, Sohei Kamiya, aproveitou esse crescimento para abordar as preocupações das escolas com os recém-chegados, mas nega qualquer intenção de discriminá-los.
Eleita pela primeira vez para o parlamento em 2022, Kamiya disse que o forte apoio ao seu partido sinalizou as expectativas dos eleitores de cortar impostos, aumentar os gastos do governo para apoiar a economia e conter o fluxo de trabalhadores estrangeiros para o país envelhecido, apesar da grave escassez de mão de obra.
Shin Sugok é uma coreana de terceira geração no Japão que trabalha como consultora de desenvolvimento de recursos humanos e representante de uma organização que combate o discurso de ódio. Ela se preocupa com o potencial do primeiro movimento de discurso de ódio do Japão de fomentar discriminação, exclusão e até mesmo violência coletiva.
Durante a campanha eleitoral, ela recebeu inúmeras reclamações de estrangeiros de ascendência asiática que afirmavam não poder mais andar pelas ruas por medo de sua segurança. Outros tinham medo de serem chamados pelo nome durante visitas a hospitais ou ao fazerem pedidos por telefone.
Ela diz que "First First" é qualitativamente diferente da discriminação do passado porque funciona como um grito de guerra que visa criar solidariedade entre as massas.
A solidariedade das massas que queriam reafirmar 'nós somos os melhores' e 'os estrangeiros são os culpados pelo nosso sofrimento' tornou-se visível. Pessoas que acreditam que a discriminação e a exclusão são justificadas estão se unindo e formando uma aliança com os que estão no poder. Esta situação é muito semelhante à dos primeiros nazistas na Alemanha.
Shin argumenta que a situação atual é em grande parte resultado da política do antigo governo ABE de semear a xenofobia, uma política que Sanseito herdou e continua a espalhar por meio do uso hábil das mídias sociais, alimentando a discriminação.
Sandra Haefelin, nascida em Munique, Alemanha, e morando no Japão desde 1998, diz que se sente desconfortável com a frase "japonês primeiro" porque a definição de japonês é vaga.
“Sou cidadão japonês e moro no Japão há 27 anos, mas muitas vezes sou visto como um ‘estrangeiro’ pela minha aparência”, diz Haefelin, uma personalidade da televisão e ensaísta que escreve em japonês sobre temas de multiculturalismo.
"Quando os políticos dizem 'pelo povo japonês', acho que não incluem pessoas como eu. Tenho certeza de que há muitos estrangeiros residentes no Japão e japoneses com raízes estrangeiras que pensam da mesma forma."
Os promotores do slogan afirmam que ele se refere a "pessoas com nacionalidade japonesa". No entanto, as pessoas são frequentemente julgadas com base na aparência. "Nesse contexto, o 'Japonês Primeiro' pode ser usado como uma ferramenta para promover a discriminação", explica Haefelin.
Talvez mais preocupante, diz Haefelin, seja o discurso que busca dividir os estrangeiros em bons e maus.
"Na Alemanha, por exemplo, há um movimento para distinguir entre 'imigrantes sérios' e 'imigrantes problemáticos'. Mas quem define os critérios para isso e como?", ela pergunta.
Haefelin ressalta que a desconfiança em relação a imigrantes e refugiados na Alemanha aumentou acentuadamente após incidentes como estupros coletivos. No entanto, como não ocorreram incidentes de grande escala no Japão, ela acredita que o slogan "Japoneses em primeiro lugar" ganhou apoio em grande parte devido à ansiedade e à insatisfação econômica.
Jeff Kingston, professor da Universidade Temple em Tóquio, considera o Sanseito um "partido de ultradireita" por causa de sua defesa do revisionismo histórico, rejeição da Constituição da Paz e referências ao recrutamento e à introdução de armas nucleares, o que revela claramente suas intenções autoritárias.
Kamiya está criando um "mini-Trump" que tenta explorar as mesmas queixas e sentimentos antiglobais que alimentaram o movimento MAGA nos Estados Unidos, afirma. O apelo populista e emocional do ex-gerente de supermercado atrai mais apoio, especialmente entre a geração mais jovem, do que entre os próprios políticos.
"Muitos jovens japoneses se sentem excluídos, diante de perspectivas sombrias. Kamiya oferece uma mensagem de esperança misturada a ressentimentos e um nacionalismo brilhante", explica Kingston.
Kingston, especialista em história japonesa moderna e política e diplomacia do Sudeste Asiático, chamou a ideia de que o slogan "Japonês Primeiro" não é discriminatório de "puro sofisma".
"O apelo para limitar a concentração de residentes estrangeiros é discriminatório. Isso é típico de etnonacionalistas que vaiam uns aos outros sobre imigração, enquanto negam que essa seja sua intenção", disse ele.
No final das contas, Kingston acredita que a economia japonesa ficaria "paralisada" sem trabalhadores estrangeiros, e aqueles que estão no poder reconhecem seu papel.
O que Sanseito fez foi politizar a imigração e empurrá-la para o debate público, forçando outros partidos a esclarecerem suas posições sobre o assunto. Agora o gênio saiu da lâmpada. De agora em diante, o assunto será debatido, e os partidos extremistas tentarão usar a carta antiestrangeiros.

