A IA proporciona aos jogadores japoneses novas vantagens comerciais e uma nova proteção de direitos.

A IA proporciona aos jogadores japoneses novas vantagens comerciais e uma nova proteção de direitos.

TÓQUIO – Os esforços para explorar comercialmente as vozes de dubladores estão ganhando força no Japão, destacando seu potencial para aumentar o alcance global dos animes japoneses na era da inteligência artificial.

As ferramentas baseadas em IA também devem fortalecer a proteção dos artistas performáticos, cujas vozes se tornaram cada vez mais valiosas, embora seu status e direitos profissionais permaneçam vulneráveis.

A Associação para o Avanço da Integridade Vocal e da Dublagem, sediada em Tóquio, apresentou suas iniciativas para alcançar esses objetivos em uma coletiva de imprensa em novembro passado.

O dublador Mika Kanai subiu ao palco e disse uma frase simples em japonês: "Você acabou de dizer que está com fome, mas o que exatamente você quer comer?" Suas palavras foram então traduzidas para vários idiomas estrangeiros, incluindo inglês e chinês, mas ainda soavam como Kanai.

A demonstração apresentou um sistema de IA generativa desenvolvido pela empresa de software americana ElevenLabs, especializada em geração de fala por IA. Segundo a VIDA, a tecnologia consegue traduzir palavras faladas para mais de 30 idiomas, preservando a qualidade vocal original do falante.

O sistema também integra marcas d'água digitais em arquivos multimídia, permitindo que criadores e detentores de direitos rastreiem como as gravações de voz são usadas, verifiquem a propriedade e ajudem a prevenir cópias ou roubos não autorizados.

A associação, fundada por agências de dublagem e outros profissionais do setor, planeja usar essa tecnologia em consulta com os detentores de direitos autorais para apoiar a expansão do anime japonês no exterior.

“As vendas de animes japoneses aumentaram significativamente no exterior, e os dubladores são muito populares”, disse Masakazu Kubo, diretor representante da VIDA. “A base de fãs crescerá ainda mais se as performances dos dubladores originais forem utilizadas sem dublagem.”

Seguindo a mesma linha, a grande empresa comercial Itochu Corp. e o Sindicato dos Atores do Japão anunciaram um acordo em novembro passado para estabelecer um banco de dados oficial de vozes conhecido como J-Vox-Pro.

A plataforma foi projetada para armazenar, gerenciar e fornecer com segurança as vozes de artistas – incluindo dubladores e outros artistas – para uso no Japão e no exterior.

A iniciativa reflete a crescente preocupação dentro da indústria sobre a facilidade com que as vozes podem ser replicadas usando IA.

De acordo com a legislação japonesa vigente, a voz de uma pessoa não é reconhecida como material protegido por direitos autorais. Consequentemente, sistemas de IA podem legalmente aprender com gravações de dubladores e gerar vozes semelhantes sem infringir as leis de direitos autorais.

Vídeos que utilizam vozes geradas por IA sem autorização já estão circulando amplamente online.

Para muitos artistas, a questão tem implicações tanto econômicas quanto legais.

Dubladores frequentemente têm dificuldade em encontrar emprego estável, com muitos ganhando menos de 3 milhões de ienes (cerca de US$ 19.000) por ano.

Como muitas vezes trabalham como freelancers, seus direitos pessoais e econômicos podem ser difíceis de proteger, de acordo com a Itochu e outras organizações envolvidas no projeto.

O banco de dados J-Vox-Pro foi projetado para criar um mecanismo pelo qual os artistas possam obter renda quando suas vozes gravadas – ou vozes geradas por IA a partir delas – forem usadas por empresas.

As aplicações potenciais dessa tecnologia vão além do entretenimento. Versões de vozes de dubladores geradas por IA poderiam ser usadas em sistemas de navegação automotiva ou para ler instruções médicas para idosos com dificuldade de leitura de letras pequenas.

O Sindicato dos Atores Japoneses também está considerando medidas adicionais para combater o uso não autorizado das vozes dos artistas, incluindo a busca de uma liminar judicial contra reproduções não autorizadas e o ajuizamento de ações por danos.

"A iniciativa do setor privado para certificar as vozes originais dos dubladores deve ser eficaz na prevenção, em certa medida, do uso de vozes não autorizadas", disse Kazuhiro Ando, ​​professor de direito da propriedade intelectual da Universidade Toyo.

"Mas, como existem limites, é necessário avançar com medidas legislativas e reprimir essa prática", disse ele.