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O número de pessoas que vivem sozinhas superou o de famílias com pai, mãe e filho(s), segundo pesquisa do Ministério de Assuntos Internos e Comunicações do Japão.

Os dados dos últimos 30 anos mostram que em 1990, 37% dos lares japoneses eram compostos pelo pai, mãe e pelo menos 1 filho. Em 2015 o percentual havia caído para 27%.

Já a quantidade de pessoas que viviam sozinhas subiu de 23% em 1990, para 35% há 3 anos. A mudança na composição da família tem chamado atenção das autoridades japonesas, preocupadas com a queda na natalidade e o envelhecimento da população.

Por outro lado, o mercado de produtos para uma pessoa está crescendo no país. Em supermercados, a mudança já é percebida em alimentos tradicionais da dieta japonesa como o kare ou curry.

Antigamente as vendas de pacotes de kare para uma família de três ou quatro pessoas era maior do que o da embalagem para uma pessoa. Segundo a empresa de pesquisa Intage, o quadro mudou em 2017, quando pela primeira vez o kare para uma pessoa superou o produto voltado à família.

A rede estatal NHK, também apontou uma mudança em seu programa de culinária “Kyou no Ryouri”. A atração costumava ensinar receitas para 4 pessoas, mas desde 2009 adotou como base, porções para apenas duas pessoas. Nos últimos anos, as receitas para uma pessoa tem tomado conta do programa.

Outro setor que viu mudanças no comportamento do consumidor foi o de viagens. Empresas de turismo do país estão investindo em mais planos de viagem para apenas uma pessoa. Estima-se que 1000 programas para esse tipo de público sejam criados todos os anos, com média de 50 mil consumidores.

O isolamento dos idosos 

Entre as pessoas que vivem sozinhas, um terço delas são idosas. Enquanto para os jovens a opção de viver a sós não traz tantos problemas, o mesmo não pode ser dito para aqueles com mais de 65 anos.

Além dos problemas de saúde, o lado financeiro também pesa. O professor da Universidade Ritsumeikan, Naoyoshi Karakama, afirma que mais da metade dos idosos vivem em situação de pobreza.

Um exemplo é o senhor Hiroshi Ogawa, de 74 anos. Ele vivia em uma residência em Tóquio com sua esposa e sua filha. Contudo, depois de sua mulher falecer de câncer e sua filha se casar, ele passou a viver sozinho, rotina que segue nos últimos 10 anos.

O senhor Ogawa trabalhava em uma empresa de copiadoras e impressoras, mas houve momentos em que se viu obrigado a se contentar em trabalhar meio-período, recebendo apenas 90 mil ienes por mês. O dinheiro era o suficiente apenas para pagar as contas.

Apesar do cotidiano complicado, o senhor Ogawa se recusa a pedir ajuda para a filha. Ele revela que não quer “dar trabalho e despesas” para a filha, preferindo procurar por outros trabalhos de meio-período.

O caso do senhor Ogawa não é exceção no Japão, o Centro de Pesquisa Conjunta Hakuhodou revelou que em 2016, 94% dos idosos se recusavam a pedir ajuda aos filhos.

O ultrapassado sistema de aposentadoria

Outro problema que pode ser apontado, além dos baixos salários em empregos de meio-período, é o baixo valor da aposentadoria, que obriga muitos a depender de ajuda estatal.

Estima-se que nos últimos 30 anos, o número de residências com idosos recebendo assistência financeira do governo aumentou em 3,6 vezes, chegando a 830 mil lares. Desse total, 90% dos beneficiados vivem sozinhos.

Os dados mostram que muitos não estão conseguindo mais viver apenas da aposentadoria. O especialista em políticas de assistência social, Shungo Koreda, do Instituto de Pesquisa Geral Yamato, explica que:

“O sistema de aposentadoria nacional não foi concebido para garantir o sustento de uma só pessoa. Ele foi pensado para residências onde o casal aposentado vive junto e pode somar os ganhos da aposentadoria”.

“Com as grandes mudanças na estrutura familiar nos últimos 30 anos, há a necessidade de mudar o sistema de impostos e seguridade social para se adaptar aos vários estilos de vida da atualidade”, conclui o especialista.

Possíveis soluções 

O governo japonês tem pela frente o problema da queda da natalidade e dos idosos. O segundo problema é mais grave, uma vez que a quantidade de idosos aumenta todos os anos no país, ocupando uma maior parcela da população japonesa.

As autoridades japonesas consideram difícil aumentar a quantidade paga pela aposentadoria, pois um leve aumento de alguns mil ienes, necessitaria de grandes recursos que o país não possui, mesmo sendo a terceira maior economia do mundo.

Uma das soluções propostas pelo gabinete do primeiro-ministro Shinzo Abe é o de aumentar a idade da aposentadoria, permitindo aos idosos trabalharem até os 70 anos. Porém, a medida atua mais como uma política de assegurar mão-de-obra, do que uma ajuda financeira aos idosos, já que muitos continuam a trabalhar com salários menores.

Ainda assim, a opção de aumentar a idade pode ser um passo para solucionar o problema, pois pode ser combinado com uma melhora no ambiente de trabalho para os idosos, proposta estudada pelo governo japonês.

Enquanto uma decisão não é tomada pelas autoridades japonesas, as discussões seguem ocorrendo em todo o país, já que o problema não pode ser deixado para depois, em um dos países com a maior população de idosos do mundo.

Fonte: NHK WEB NEWS

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