Takaichi viaja a Washington para uma cúpula em meio às consequências da guerra com o Irã.
A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, viajou aos Estados Unidos na quarta-feira para o que ela espera ser uma reunião "muito difícil" com o presidente americano, Donald Trump, depois que ele pediu ao Japão e a outros aliados que enviassem navios de guerra para garantir a segurança do Estreito de Ormuz.
A visita de três dias a Washington tinha como objetivo inicial tratar de comércio e do fortalecimento da aliança EUA-Japão, em um contexto de crescente influência da China na Ásia. Agora, espera-se que ela seja ofuscada pela guerra iniciada pelos EUA e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro.
"Acredito que a visita americana será muito difícil, mas farei tudo ao meu alcance para maximizar o interesse nacional e proteger o cotidiano das pessoas em um cenário que muda diariamente", disse Takaichi ao Parlamento na quarta-feira, poucas horas antes de sua partida.
"Precisamos trabalhar para restaurar a paz e a estabilidade no Oriente Médio e espero discutir isso em profundidade", disse Takaichi aos repórteres antes de seguir para o aeroporto.
Takaichi realizou seu primeiro encontro com Trump em outubro, em Tóquio, poucos dias depois de se tornar a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Japão. Conservadora convicta, Takaichi é protegida do ex-líder Shinzo Abe, que desenvolveu uma estreita amizade com Trump.
Seu plano inicial era concentrar-se principalmente na China e fortalecer a aliança EUA-Japão antes da tão aguardada viagem diplomática de Trump à China, que vinha sendo planejada há meses. A Casa Branca anunciou na terça-feira que a viagem seria adiada devido à guerra no Oriente Médio.
Takaichi estará sob pressão para determinar a melhor oferta a fazer a Trump. Especialistas afirmam que demonstrar comprometimento e progresso nos acordos de investimento é fundamental para o sucesso da cúpula.
Autoridades japonesas afirmam que ambos os lados se esforçarão para aprofundar a cooperação nas áreas de segurança regional, minerais essenciais, energia e relações com a China.
Sendo um aliado fundamental dos EUA na Ásia, o Japão tem evitado cuidadosamente apoiar explicitamente ataques EUA-Israel contra o Irã ou quaisquer decisões relativas ao envio de navios de guerra. Isso se deve principalmente às restrições constitucionais do Japão, mas também a questões legais envolvendo a ação dos EUA e à forte oposição pública.
Ela disse ao Parlamento que o Japão espera ver uma redução da escalada da guerra, que interrompeu o fornecimento de petróleo e gás, do qual o Japão é altamente dependente.
"Sem uma rápida desescalada da situação, nossa economia estará em apuros", disse ela. "Uma rápida desescalada é importante tanto para a economia americana quanto para a economia global."
O Japão também espera fortalecer seus laços tradicionais com o Irã, de onde provém a maior parte de suas importações de petróleo.
Takaichi e seus ministros negaram que Washington tivesse solicitado oficialmente o envio de navios de guerra japoneses para o Estreito de Ormuz. Trump, falando no Canal X, pediu a vários países, incluindo o Japão, que se voluntariassem. Mais tarde, afirmou que não precisava mais deles, queixando-se da falta de entusiasmo.
Isso alivia um pouco a pressão sobre Takaichi.
“Não temos intenção de enviar navios de guerra neste momento”, disse Takaichi na quarta-feira durante a sessão parlamentar. Uma missão de reconhecimento e inteligência é possível, mas somente após um cessar-fogo, esclareceu ela. Alguns especialistas japoneses observaram que a desminagem seria uma missão que o país poderia empreender após o fim das hostilidades.
"Explicarei claramente o que podemos e não podemos fazer com base na lei japonesa", disse Takaichi. "Tenho certeza de que (Trump) está plenamente ciente da lei japonesa."
Takaichi deseja discutir a coerção econômica e de segurança da China e garantir o engajamento dos EUA na região do Indo-Pacífico, especialmente porque algumas tropas americanas estacionadas no Japão estão sendo transferidas para o Oriente Médio – uma mudança vista pelo Japão como um risco potencial para a Ásia, à medida que a influência da China aumenta.
Takaichi planeja tranquilizar Trump sobre o fortalecimento militar do Japão, enfatizando o rápido desenvolvimento de mísseis de longo alcance para reforçar as capacidades ofensivas. Isso rompe com o princípio de autodefesa do Japão no pós-guerra e reflete um alinhamento mais estreito com os Estados Unidos.
Na cúpula, espera-se que Takaichi expresse o interesse do Japão em aderir ao sistema de defesa antimíssil americano "Golden Dome", um projeto multibilionário e de múltiplas camadas.
O Japão considera a China uma ameaça crescente à sua segurança e tem pressionado para fortalecer sua presença militar nas ilhas do sudoeste próximas ao Mar da China Oriental.
Takaichi prometeu rever a política de segurança e defesa do Japão até dezembro e busca fortalecer ainda mais as forças armadas japonesas com armas de combate não tripuladas e mísseis de longo alcance.
Nas próximas semanas, seu governo irá abandonar a proibição mortal das exportações de armas, a fim de promover a indústria de defesa japonesa e a cooperação com os Estados Unidos e outros países amigos.
O Japão, um país com poucos recursos naturais, busca diversificar seus fornecedores de petróleo e está finalizando um investimento japonês para aumentar a produção de petróleo no Alasca e formar reservas no próprio país, segundo informações da mídia. Um investimento japonês em pequenos reatores modulares e gás natural nos Estados Unidos também é uma possibilidade.
Caso se chegue a um acordo, os projetos farão parte de um programa de investimentos de US$ 550 bilhões prometido pelo Japão em outubro. Em fevereiro, as duas partes anunciaram o compromisso do Japão com o primeiro lote de projetos, no valor de US$ 36 bilhões — uma usina de gás natural em Ohio, uma instalação de exportação de petróleo bruto na costa do Golfo do México, nos EUA, e uma fábrica de diamantes sintéticos —, cujo progresso também será discutido com Trump.
Segundo informações, o Japão planeja propor o desenvolvimento conjunto de elementos de terras raras descobertos no fundo do mar ao redor da remota ilha japonesa de Minamitorishima como parte do programa de investimentos.
As disputas diplomáticas e comerciais se intensificaram ainda mais desde o comentário de Takaichi de que qualquer ação militar chinesa contra Taiwan poderia justificar uma resposta militar japonesa.

