Um canadense ainda perplexo após sua deportação para o Japão em 1946.
Nobuko Rena Nakayama afirma que ainda sofre de uma crise de identidade após ter sido forçada a deixar o Canadá e ir para o Japão em 1946.
Atualmente residente em Tóquio, Nakayama, de 93 anos, afirma ser uma das cerca de 4.000 pessoas de origem japonesa que foram deportadas para o Japão após a Segunda Guerra Mundial.
Essa descendente de japoneses de terceira geração disse que gostaria que mais pessoas entendessem como ela e milhares de outras pessoas sofreram com a guerra.
A VIDA MUDOU APÓS O ATAQUE A PEARL HARBOR
Nakayama nasceu em Vancouver, filho de pais nascidos no Canadá, cuja árvore genealógica tem origem na província japonesa de Kumamoto.
O pai de Nakayama trabalhava para uma empresa florestal e jogava pelo Vancouver Asahi, um time de beisebol formado por canadenses de ascendência japonesa.
A vida abastada da família foi destruída em 7 de dezembro de 1941, quando o antigo exército japonês bombardeou Pearl Harbor e atacou a colônia britânica de Hong Kong.
O Canadá declara guerra ao Japão. Muitos soldados canadenses foram mortos em Hong Kong, o que levou a um aumento do sentimento antijaponês no país.
Na época, aproximadamente 22.000 pessoas de ascendência japonesa viviam no Canadá. Elas foram rotuladas como "estrangeiros inimigos" e realocadas para o interior do Canadá durante a guerra. Os bens dos canadenses de origem japonesa foram confiscados.
O pai de Nakayama foi levado e ela não o veria novamente pelos próximos quatro anos.
Em 1942, a família de Nakayama foi transferida à força para um campo de internamento nas Montanhas Rochosas, onde suportaram temperaturas invernais abaixo de zero numa casa feita de tábuas de camada única.
Em 1944, o governo canadense desenvolveu um programa básico sobre o que fazer com os canadenses de origem japonesa após o término da guerra.
Os japoneses nativos foram forçados a escolher entre serem realocados para o leste das Montanhas Rochosas, através do Pacífico, ou serem "repatriados" para o Japão.
A família de Nakayama embarcou em um navio com destino ao Japão em junho de 1946. Nakayama tinha 13 anos na época.
"Não sei por que meu pai e minha mãe decidiram fazer isso", disse ela.
Ela foi uma das 3.964 canadenses de ascendência japonesa que foram ao Japão pelo programa antes de ele ser cancelado em 1947.
"REPATRIADO" PARA UM PAÍS ESTRANGEIRO
No Japão, pela primeira vez na vida, Nakayama morou em um dormitório para "repatriados" na província de Ibaraki e começou a frequentar a escola.
Ela não entendia japonês. Em uma ocasião, ela só conseguiu copiar quatro caracteres do quadro antes do final da aula.
Os veteranos a vestiam de forma casual porque ela não fazia reverências e tinha permanente. Nakayama não entendia bem por que eles estavam com raiva dela.
Ela repreendia a mãe dia após dia.
"Por que você me trouxe aqui?", perguntou ela à mãe. "Quero voltar para o Canadá."
Mas esse dia nunca chegou durante sua infância.
Nakayama se formou na Universidade do Sagrado Coração em Tóquio em 1956 e conseguiu um emprego na filial do Extremo Oriente da Pan American World Airways Inc., a companhia aérea americana que já não existe mais.
Ela achou o trabalho divertido e que lhe permitia ser ela mesma.
"Falei inglês da manhã à noite", disse ela. "Senti como se estivesse de volta ao meu lugar. Senti-me relaxada e feliz."
Nakayama casou-se com um japonês e criou um filho e uma filha.
Ela estabeleceu para si mesma a meta de criar filhos japoneses "perfeitos". Fez um curso de culinária onde aprendeu a cozinhar peixe com molho de soja e a preparar sushi.
"Eu não sabia a que país pertencia nem onde estavam minhas raízes", disse Nakayama. "Eu não tinha autoconfiança. Não queria que meus filhos sofressem com esse sentimento."
"A guerra não sofre apenas com bombardeios."
No Acordo de Reparações de 1988, o governo canadense reconheceu que seu tratamento para com os canadenses de origem japonesa durante a Segunda Guerra Mundial foi injusto e concordou em oferecer um pedido de desculpas e uma indenização.
Nakayama, que sempre quis voltar para o Canadá, usou o dinheiro da indenização para comprar um apartamento em Vancouver, onde passou todos os verões da década de 2000.
Ela adorava o clima seco de Vancouver e a convivência com seus primos, mas sentia falta da agitação de Tóquio com a chegada do outono. Mesmo após dez anos de processos judiciais, ela ainda não conseguia se decidir entre o Japão e o Canadá.
Ela acredita que o Canadá a deportou, embora Ottawa tenha usado a palavra "repatriação".
"Naquela época, o Japão não era um lugar para onde eu pudesse 'voltar'", disse ela.
Quanto ao Japão, Nakayama paga impostos no país há décadas, mas não pode votar porque optou pela cidadania canadense por conveniência em relação ao seu trabalho.
Nakayama afirmou que acreditava poder ser descrita como uma "canadense deslocada".
Hoje, no Japão, ela vê pessoas gritando slogans como "com os estrangeiros" na televisão. Ela disse que essas cenas a deixam tensa.
"Ah, será que vou ser expulsa de novo?", disse ela, pensativa.
As manifestações anti-imigração fazem-na lembrar da discriminação que sofreu durante a guerra.
"O sofrimento da guerra não se resume apenas aos bombardeios", disse ela, cerrando os punhos. "Quero que as pessoas saibam que alguns sofrem com a guerra tanto quanto eu."
DIREITOS CIVIS LIMITADOS
Masako Iino, ex-presidente da Universidade de Tsuda, explicou por que o Canadá chegou ao ponto de expulsar seus cidadãos de origem japonesa.
"Em outras partes do continente norte-americano, nipo-americanos foram internados e alguns deles perderam suas propriedades, mas os Estados Unidos não confiscaram seus bens nem os expulsaram como fez o Canadá", disse Iino, autor do livro "Nikkei Canada-jin no Rekishi" (Uma História dos Nipo-Canadenses).
Ela explicou que a diferença decorria do estatuto jurídico dos japoneses étnicos.
“Os nipo-americanos de segunda e terceira geração nascidos nos Estados Unidos gozavam de plenos direitos civis, garantidos pela 14ª Emenda à Constituição dos EUA”, afirmou o acadêmico. “Eles também tinham o direito ao voto. Em contrapartida, os nipo-canadenses de segunda e terceira geração tinham apenas direitos civis limitados.”

