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Um judoca nepalês desafia o preconceito com a ajuda de um treinador japonês.

Dois adolescentes nepaleses pisaram no tatame das Olimpíadas para Surdos de Tóquio 2025, desafiando o preconceito e, graças à determinação de seu mentor japonês, provando que o judô pode ser uma tábua de salvação.

Susma Tamang, de 19 anos, competiu na categoria feminina de 52kg e Lucky Chaudhary, de 18 anos, na categoria masculina de 60kg no Tokyo Budokan, no distrito de Adachi, na capital, em 16 de novembro.

O professor deles, Yusuke Furuya, de 39 anos, os observava das arquibancadas e disse: "Antes que eu percebesse, eles já estavam maiores e mais fortes do que eu."

Furuya, um fotógrafo que vive no Nepal, também é instrutor de judô em uma escola local para alunos surdos. Ele trabalhou incansavelmente para enviar a equipe nepalesa para as Olimpíadas para Surdos.

Durante seus estudos universitários, Furuya viajou por todo o Nepal. Durante uma estadia de aproximadamente duas semanas em um orfanato, ele ensinou judô às crianças.

Ele não tinha experiência competitiva nesse esporte.

No entanto, Furuya ficou fascinado pelo Nepal desde aquela viagem.

Após se formar, Furuya trabalhou como professor em escolas japonesas para alunos surdos, mas mudou-se para o Nepal em 2017, onde organizou atividades como convidar judocas japoneses para ensinar crianças.

Então chegou o dia em que crianças de uma escola local para surdos participaram de um torneio de judô em Katmandu.

Naquela época, Furuya não entendia a língua de sinais nepalesa. Ele começou a estudá-la diariamente no dia seguinte àquele encontro.

COMBATENDO PRECONCEITOS PROFUNDAMENTE ENRAIZADOS

Seis meses depois, Furuya visitou um dormitório da escola e encontrou as crianças surdas.

Lá, Furuya ficou chocado ao ouvir crianças dizerem que pessoas com deficiência auditiva têm maior probabilidade de serem vítimas de abuso sexual.

Eles explicaram que isso se devia à presunção de que as pessoas não conseguem resistir gritando e à realidade de que é difícil para elas denunciarem verbalmente os abusos.

Às vezes, "nem mesmo a polícia dá ouvidos", disseram as crianças a Furuya.

Uma superstição que persiste no Nepal é a crença de que as pessoas'As deficiências são uma forma de sofrimento devido a más ações cometidas em uma vida anterior, disse Furuya.

Os preconceitos são profundos, e conhecidos nepaleses chegaram a dizer a Furuya: "Usar a linguagem de sinais é constrangedor".

Furuya disse às crianças: "O judô é uma forma de proteger o próprio corpo."

CONSTRUINDO UM REFÚGIO PARA O JUDÔ

Graças ao financiamento coletivo no Japão, Furuya arrecadou fundos e construiu um ginásio de judô perto do dormitório da escola em Katmandu, em 2019.

Quase todas as 30 a 40 crianças com idades entre 6 e 19 anos que frequentavam a escola vinham todos os anos para ter aulas.

Dentre eles, Tamang e Chaudhary foram selecionados como representantes para as Olimpíadas para Surdos.

Segundo Furuya, não existe assistência pública disponível para despesas de viagem.

Além de acompanhá-los como intérprete, ele também cobriu os custos de transporte aéreo, hospedagem e alimentação, e está participando novamente do financiamento coletivo.

Furuya afirmou que estava determinado a garantir a participação deles a todo custo.

"Essas crianças têm um potencial incrível e podem participar de torneios mundiais", disse ele, após ressaltar que o preconceito contra pessoas com deficiência continua sendo um problema tanto em países em desenvolvimento quanto em países desenvolvidos.

A presença de Tamang e Chaudhary nas Olimpíadas para Surdos "envia uma mensagem para muitas pessoas", disse Furuya.

Tamang e Chaudhary perderam suas primeiras partidas.

Tamang disse: "Da próxima vez, vou treinar mais e vou vencer."

Chaudhary afirmou: "Vou trabalhar duro para poder competir novamente daqui a quatro anos."

Furuya afirmou: "Eles estavam no mesmo nível que as principais nações do judô. Quero que os nepaleses se orgulhem deles."