Um relatório dos serviços de inteligência dos EUA descreve as declarações do primeiro-ministro japonês sobre Taiwan como uma "mudança significativa".
WASHINGTON — As declarações da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, no ano passado, sobre a provável resposta de Tóquio a uma eventual intervenção em Taiwan representaram uma "mudança significativa" para um líder em exercício do país, afirmou um relatório da inteligência americana divulgado nesta quarta-feira.
O relatório indica que a explicação de Takaichi de que uma possível invasão chinesa de Taiwan deve ser reconhecida como uma "situação de ameaça à sobrevivência" do Japão merece consideração, pois forneceria uma justificativa legal para o envolvimento do país.
A avaliação anual de ameaças da comunidade de inteligência dos EUA observou que a China, que considera Taiwan parte inalienável de seu território, parece temer que as declarações de Takaichi ao Congresso em novembro fortaleçam o movimento independentista na ilha autônoma.
Takaichi argumentou que suas opiniões não eram novas e estavam de acordo com a interpretação do governo japonês sobre essa expressão em sua legislação de segurança de 2015, que poderia incentivar o país a exercer seu direito à autodefesa coletiva ou a defender seus aliados mesmo quando não fosse atacado diretamente.
Em uma coletiva de imprensa regular realizada na quinta-feira em Tóquio, o secretário-chefe do Gabinete, Minoru Kihara, contestou a avaliação do relatório, afirmando: "A posição do governo tem sido consistente e a noção de que isso representa uma mudança significativa é imprecisa."
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, disse em uma coletiva de imprensa em Pequim que o relatório dos EUA indica que a comunidade internacional está cada vez mais consciente da "natureza maliciosa e do impacto" das declarações de Takaichi e "permanece vigilante contra a perigosa tendência do Japão de provocar e semear a discórdia".
"O Japão não pode justificar suas ações simplesmente alegando que sua 'posição não mudou', nem pode conquistar a confiança de seus vizinhos asiáticos e da comunidade internacional", disse Lin.
Desde que Takaichi fez esses comentários, a China adotou medidas agressivas contra o Japão, incluindo a restrição do comércio e o cancelamento de eventos culturais.
"Pequim provavelmente recorrerá a medidas econômicas coercitivas adicionais se as tensões aumentarem", afirmou o relatório, compilado pelo Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional.
Ele acrescenta que a China deveria intensificar suas atividades militares e da guarda costeira em torno das Ilhas Senkaku, um pequeno grupo de ilhotas desabitadas controladas pelo Japão, mas reivindicadas por Pequim, aumentando assim o risco de "acidentes ou erros de cálculo que levem a uma escalada não intencional".
O relatório anual da comunidade de inteligência dos EUA foi divulgado um dia antes da cúpula de Takaichi com o presidente Donald Trump em Washington, durante a qual um ambiente de segurança mais rigoroso em torno do Japão e de Taiwan provavelmente estará entre os principais temas da agenda.
O relatório, que analisa ameaças em várias regiões, indica que as forças armadas chinesas "estão fazendo progressos constantes, mas desiguais, em termos de capacidades que utilizariam em qualquer tentativa de tomar Taiwan e dissuadir – e, se necessário, derrotar – a intervenção militar dos EUA".
A comunidade de inteligência, no entanto, acredita que a China não está planejando invadir Taiwan em 2027, acrescentando que Pequim prefere alcançar a unificação com a ilha democrática sem recorrer à força.
Autoridades chinesas sabem que "uma invasão anfíbia de Taiwan seria extremamente difícil e acarretaria um alto risco de fracasso, especialmente em caso de intervenção dos EUA".
Em Taiwan, o Conselho de Assuntos Continentais declarou que a ilha ainda estava avaliando "o adversário com a máxima cautela" e se preparando para "o pior cenário possível".
“Nosso desenvolvimento militar e nossos esforços para fortalecer a defesa nacional continuarão de acordo com nossos planos estabelecidos”, disse Liang Wen-chieh, vice-chefe do conselho. “Não vamos diminuir o ritmo simplesmente porque um relatório específico sugere que a China pode ter relaxado seus preparativos para uma ação militar contra Taiwan.”

