Uma cidade japonesa está recorrendo a estudantes internacionais em meio a uma crise nos rituais de santuários.
MATSUSHIMA, Japão – Os organizadores de um ritual xintoísta secular na pitoresca cidade costeira de Matsushima estão recorrendo a estudantes internacionais para ajudá-los a transportar seu santuário portátil “mikoshi”, já que o envelhecimento da população japonesa deixa menos moradores locais para manter a tradição.
Todos os anos, em abril, os habitantes da cidade no nordeste da província, perto de Sendai, içam o enorme mikoshi, que pesa mais de uma tonelada, sobre vigas de madeira e o transportam por oito quilômetros ao longo da costa.
O ritual está ligado ao clã Date, poderosos senhores feudais que governaram a região durante o período Sengoku, nos séculos XV e XVI, uma época de grande prosperidade. Transmitido de geração em geração, este ritual representa uma conexão viva com a história e a comunidade para muitas pessoas em Matsushima.
Nos últimos anos, porém, o número de jovens disponíveis para participar tem diminuído. O grande terremoto e tsunami que atingiu o leste do Japão há 15 anos remodelou a população da cidade, e as gerações mais jovens continuam a se mudar, deixando menos pessoas para carregar o mikoshi.
Masaaki Matsutani, chefe da associação de jovens paroquianos que organiza o ritual, disse que a falta de participantes se tornou uma grande preocupação.
“Enfrentamos preocupações como: ‘Por quantos anos mais poderemos ver este espetáculo?’”, disse ele. “Tentamos e falhamos, experimentando várias coisas. E decidimos que, precisamente porque vivemos numa época de diversidade, precisávamos da coragem de sair da casca da tradição e seguir em frente.”
Diante desse desafio, a associação tomou uma decisão incomum em 2025: recorreu a estudantes internacionais que estudavam na Universidade de Tohoku. A ideia era inédita, e alguns moradores locais questionaram se estrangeiros poderiam participar de um ritual xintoísta profundamente enraizado.
Trinta estudantes aceitaram o convite. Entre eles estava Anna Zaiane, de 21 anos, nascida na França, filha de mãe japonesa e pai alemão. Ela sempre foi fascinada pela cultura japonesa e estudava na universidade as diferenças entre os sistemas jurídicos japonês e francês.
“Quando vi o e-mail, quis participar imediatamente”, disse Zaiane. “Mas também me preparei mentalmente. Fiquei pensando se seria realmente aceitável para nós, estrangeiros, participar” de um ritual preservado pela população local há gerações.
No dia do ritual, suas expectativas foram superadas. Ela não carregou o santuário principal em si, mas ajudou a carregar um mikoshi infantil menor que acompanhava a procissão.
Suas tarefas incluíam espalhar sal purificador e tocar um tambor e um gongo. A intensidade da procissão – os cânticos, o peso do santuário e a energia da cidade – envolvia todos os seus sentidos.
Os moradores saíram de suas casas ao longo da rua, oferecendo comida de suas varandas: bolinhos de massa, pudim, sopa de missô e frutos do mar. "Eu me perguntei se era realmente certo receber tanta coisa", disse Zaiane. "Era como se a cidade inteira estivesse unida."
Ela percebeu que o significado do ritual ia além de uma simples celebração. Matsushima, cidade devastada pelo tsunami de 2011, preservou muitos de seus marcos culturais, incluindo o Templo Zuiganji.
Zaiane ficou admirada ao saber que as pequenas ilhas na Baía de Matsushima, em frente ao templo, e as fileiras de cedros na entrada ajudaram a deter o tsunami e a evitar danos ao salão principal, um tesouro nacional.
"Isso me fez perceber o quão importantes esses rituais são em um país propenso a desastres naturais", disse ela.
Ao final da procissão, os participantes subiram os degraus íngremes que levavam ao santuário, onde as cerejeiras estavam em plena floração.
Falando em uma reunião pós-ritual, Zaiane admitiu que os estudantes inicialmente temiam causar transtornos. "Mas estou muito feliz por termos sido aceitos", disse ela. Os moradores aplaudiram, gritando: "Voltem! Estaremos esperando por vocês!"
A experiência deixou uma impressão duradoura. Num mundo onde os debates sobre imigração e o tratamento de estrangeiros estão cada vez mais acalorados, Zaiane disse que se sentiu encorajada pela receptividade e pela mente aberta dos moradores da pequena cidade.
“Sinceramente, eu pensava que cidades pequenas pudessem ser conservadoras e fechadas”, disse ela. “Mas foi completamente diferente. As pessoas foram incrivelmente gentis e acolhedoras.”
Uma semana depois, ela retornou a Matsushima a convite dos moradores locais para presenciar outro ritual. Mostraram-lhe lugares secretos conhecidos apenas pelos habitantes locais, com vistas panorâmicas da Baía de Matsushima.
Refletindo sobre sua experiência, ela disse que isso mudou sua perspectiva sobre a tradição. "As tradições não sobrevivem se isolando", disse ela. "Elas sobrevivem por meio de seus relacionamentos com as pessoas. Abrir as portas para pessoas de fora do Japão pode nem sempre ser fácil, mas pode ajudar a preservar a cultura."
Para Matsutani, envolver estudantes internacionais não foi fácil. Alguns moradores locais temiam que romper com a tradição significasse desrespeitar o ritual. Ele disse que passou muitas noites em claro se perguntando se havia tomado a decisão certa.
Ver os estudantes e os moradores locais carregando o mikoshi juntos lhe trouxe alívio e orgulho. "Estou feliz por termos feito isso", disse ele. "Quero ver isso de novo no ano que vem e no ano seguinte."
Em todo o Japão, onde o declínio populacional ameaça muitos festivais e rituais, a experiência de Matsushima oferece uma possível solução: combinar tradições antigas com a abertura aos estrangeiros. Para a cidade e seus visitantes, o ritual tornou-se não apenas uma cerimônia, mas uma ponte entre gerações e culturas.

